quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Chapéu (Parte I)



Você já foi dormir para encontrar alguma coisa? Para buscar nos sonhos aquilo que você não vê com os olhos abertos? Toda noite vejo aquele homem sem rosto que segura um guarda-chuva na mão esquerda e espera no metrô vagões que passam vazios. Quando me aproximo ele acena com a mão esquerda para que eu o siga. Por mais que eu corra não alcanço o vagão no qual ele entra. Ele pula para dentro deoxando cair seu chapéu preto – ele não tinha um chapéu preto. No início do sonho, enquanto eu o observo de longe, parado diante dos vagões que passam, ele não usa um chapéu, acho. Este detalhe me foge a cada e toda noite, isto é, se ele o usa o chapéu o tempo todo ou apenas quando pula para o vagão deixando-o cair. Há vezes que, num atlético movimento de desespero, eu tento pular para dentro do vagão, mas nunca dá tempo, eu acabo caindo nos trilhos e então acordo. Mas quase sempre eu fico diante da plataforma e vejo o vagão se distanciar com o homem misterioso. Pego o chapéu caído no chão e examino. Na parte interna há um pequeno texto inscrito em letras douradas: “Preciso de sua ajuda, acredito poder confiar em você, mas mais do que isso, você tem o potencial necessário. Me encontre em...”. Droga! Às vezes acordo neste momento... Cada vez mais meu sonho tem acabado neste momento, embora às vez vezes ele prossiga...
Você tem controle de suas ações em um sonho ou é apenas uma espécie de gravação que você assiste impotente com a perturbadora sensação de que está participando da cadeia de fatos? Embora já tivesse amanhecido voltei a dormir, mas não consegui voltar ao sonho. Acordei umas suas horas mais tarde. Eu não tenho exatamente algo importante para fazer nesta quarta-feira, estou desempregado. Mas tudo bem, afinal dinheiro não é tudo... Brincadeira, eu sou pateticamente sustentado pelo meu pai. Apesar de que depender do dinheiro do pai aos 32 anos me deixa um pouco chateado, fere um pouco de meu orgulho, a despeito disso, eu, ao menos, não sinto pena do dinheiro dele. É uma boa ação, todo aquele dinheiro não cabe em seu bolso, então eu pego uma parte do que transborda. A verdade é que eu podia pegar bem mais, mas apenas aceitava o necessário. Levando em conta o berço de ouro em que nasci, vivo humildemente, no geral como um proletário médio das grandes metrópoles. Com a exceção de que não trabalho e que como e bebo muito bem para um proletário das metrópoles.
Eu devia procurar emprego para resolver o problema da auto-estima. Mas já é quase meio-dia, muito tarde para procurar um emprego, talvez fique para amanhã. Está frio e, como já disse, nada de especial me convida para levantar. Deixei o corpo do meu corpo cair na cama, virei de lado e quase voltei a dormir. O telefone. Eu gosto de telefone, da idéia de se ter um telefone e de todas as comodidades que ele proporciona, de fato, sou um grande entusiasta do progresso humano. Mas eu odeio quando ele toca. Odeio como ele grita impaciente obrigando você a antendê-lo. Filho da puta histérico! Isso me matava. Cortei o sofrimento:
“Alô”, eu disse.
“Alô...”, me respondeu uma voz impaciente, vagamente familiar.
...
“Hã, quem é?”
“Escuta, é a última vez que ligo. Você marcou consulta para às duas. Desta vez você vem?”. Caramba. Ela estava mesmo irritada. Mas agora que reconheci a voz e entendi do que se trata eu posso dizer, tinha um pouco de culpa mesmo. Faz uns três meses que comecei a sentir uma terrível dor aguda nos meus... bom, eu esperei um tempo, e depois mais um pouco, para ver se passava, mas como não passou eu marquei uma consulta com um urologista. Que coisa horrível, um urologista... Acontece que eu marquei a consulta três vezes e, sem avisar, não apareci nas duas primeiras e a terceira é hoje, como a secretária acaba de me lembrar agora. Acho que ela estava desistindo de mim, então hoje eu vou, prometo. Acho...
“Ah, sim, desculpa. Mas é claro, às duas horas, né? Pode confirmar!”
“Certo Monteiro... está, mais uma vez, confirmado...”
“Hã, certo... Obrigado, até às duas!”, e ela desligou. Na minha cara. Mas eu merecia.
Pensando melhor, acho que não vou. Ainda dói, é verdade. Mas você acaba se acostumando a viver com a dor. Você se adapta. Não é que eu tenha medo de ir ao médico, eu não tenho. Mas não é legal quando mexem nas suas “coisas”, sobretudo, se elas estão doendo. De repente o telefone começou a me encarar e eu fiquei pensando em como ele ficará irritado e o quanto ele gritará histericamente quando passar das duas horas e mais uma vez, sem justificativa, eu não comparecer ao maldito compromisso. Nada é mais desagradável que quando o telefone fica muito, muito bravo com você. É triste, essas coisas me deixam muito triste. Eu vou.
Vesti-me rápido. Nem tomei banho, estava frio e meu cabelo razoável. Saí de casa e fui em direção ao consultório. Dá para ir a pé em menos de 30 minutos. Eu sabia que rua tinha que pegar, embora nunca tivesse passado por lá. É uma cidade enorme, mas eu a conheço muito bem, me viro bem, sobretudo com o metrô. Eu adoro o modo como você anda incógnito nessas metrópoles. Ninguém julga o que você veste, para onde vai e porque, ninguém está nem aí. Ora, seria meio constrangedor se me olhassem e dissessem “olha lá o Monteiro indo ao urologista, seus genitais estão apodrecendo, também pudera, com a vida que leva...”. Pra falar a verdade eu temia que, no entanto, o médico me julgasse, aquele estúpido julgamento profissional – uma espécie de julgamento perito de mãe.  Eu mesmo me julgo, me pergunto de onde surgiu essa dor. Dois dias antes de ela começar eu meio que paguei pelos serviços de uma não, mais duas putas. Quando você sai com duas putas você perde o controle da higiene e coloca até sua saúde em risco, eu sabia que era estupidez, mas eu sou um estúpido, admito. Não havia sido a primeira vez e apesar de tudo eu não tinha nenhum problema moral ou ético comigo mesmo em relação a isso. Mas não faço questão que as outras pessoas saibam. Não quero a aprovação de ninguém, mas também dispenso a reprovação.
Eu já estava mais da metade do caminho quando parei diante da vitrine de uma pequena loja. Uma loja que vendia chapéus e eis que lá estava o chapéu. Isso mesmo, o chapéu. É óbvio que entrei. Um velho, gordo, gordo mesmo, um barril, com barba de bigode brancos e trajando uma roupa que, de repente, me fez perguntar se eu tinha voltado para o século XIX, falou sob sua cartola:
“Pois não, senhor?”, eu estava um tanto distraído, às vezes fico distante o que irrita as pessoas. A imagem do velho gordo com aquela enorme cartola despertou uma infantil curiosidade em mim. Você vê todos dias uns tipos estranhos nas ruas quando mora em uma metrópole, mas nunca tinha visto um homem do século XIX. Enquanto eu pensava sobre se era mesmo um homem do século XIX – estava quase convencido de que se tratava de um daqueles industriais muito ricos e maldosos do século XIX – o homem voltou a perguntar com uma surpreendentemente calma (tendo em vista que era um homem de aparência grosseira e maldosa):
“Senhor? Pois não? No que posso ajudar?”
“Ah, oi! Desculpa. O senhor vem do passado? Digo, do século XIX?”, e eis que fazia uma das perguntas mais idiotas entre todas as perguntas extremamente idiotas que já fiz em toda minha vida.
“Pois não?”, ele voltou a perguntar com cara de quem não havia entendido minha pergunta. Menos mal. Comecei a me indagar se o vocabulário dele tinha outras palavras além de “pois não?”. Podia ser um robô programado para ser um vendedor de chapéus do século XIX.
“Eu me interessei por um chapéu que está na vitrine” e apontei para ele, o chapéu. É exatamente igual o chapéu que via nos meus sonhos. Não, não é somente igual, é ele.
“Ah, ora... Ora... Perdão senhor, mil perdões!”, se desculpou o velho muito perturbado.
“Infelizmente... infelizmente, muito triste... infelizmente o chapéu já está vendido para um outro senhor... esqueci de tirá-lo da vitrine... Oh, sim esqueci... Mil perdões, mil perdões, falta terrível!”, já são pelo menos três mil perdões, e de onde eu venho tudo é mercadoria, inclusive perdões. Eu não engoli. Não consegui imaginar alguém comprando um chapéu para levar só depois. Em outra hipótese ainda mais remota, ninguém liga para uma chapelaria e diz “ontem passei com pressa pra sua loja e vi um incrível chapéu, aquele que aparece nos sonhos do senhor Monteiro, gostaria que você, por favor, o reservasse, pois vou buscá-lo amanhã.” Isso não existe.
De repente começo ter a nítida impressão de que estou fazendo parte de uma conspiração e a resposta, sem dúvida, estava naquele chapéu que eu estava sendo impedido de comprar. Fingi lamentar “uma pena, o chapéu ficaria excelente em mim, combinaria com minha calça jeans...”. Mentira, é claro, afinal ao sair daquela loja eu estaria de volta ao século XXI e usar aquele chapéu seria ridículo. Virei como se fosse sair da loja e, em um rápido movimento provido de extrema habilidade, peguei o chapéu e saí correndo como um leopardo. O velho gordo saiu de traz do balcão com uma inacreditável destreza e da porta de seu estabelecimento gritou “Ladrão! Pega ladrão!”.
Não nasci sequer para roubar chapéus do século XIX. Há uma quadra da loja pude ver uma viatura da polícia. Correr foi completamente inútil. Se eu continuar fugindo vou levar um tiro, então resolvi me entregar.
“Desculpa seu guarda, roubei este chapéu, mas juro que tentei pagar por ele.”
Um dos policiais me algemou (eram dois), me jogou na viatura com desnecessária violência e se dirigiu junto com o vendedor gordo e sua monumental cartola (que teve que ser carregada no colo, pois não cabia dentro do carro) ao distrito policial. Nem disse que eu tinha  direito de ficar calado. Mas eu julguei que era melhor não falar nada. Eu já tinha feito algumas merdas na vida, mas agora estou sendo preso... por roubar uma porcaria de chapéu. Parece meio ridículo, mas estou um pouco entusiasmado e claro, com um pouco de medo. Mas pra quem se dirigia a um urologista para ter suas coisas mexidas, terminar algemado numa viatura de polícia é algo emocionante.
Nada de interessante aconteceu nos próximos quarenta e pouco minutos. Cheguei no distrito e fiquei esperando um tempão até que Santiago, o delegado encarregado me chamou para sua sala. Ele já tinha ouvido o chapeleiro e o policial que tinha me prendido. “Em flagrante”.
“Você foi pego em flagrante”, começou o homem. Ele parecia tratar o assunto sem muito entusiasmo. Caramba, estou cagando nas calças e o delegado tratando aquilo como se fosse...
“Um furto de chapéu... Veja bem João Monteiro Salgado, já foram 3 homicídios, dois casos de estupro e algumas agressões físicas graves, só hoje... então, embora você tenha garantido por lei o direito de esperar seu advogado, podemos combinar o seguinte. Você me dá um breve depoimento e está livre, caso encerrado...”. Ele parou de falar e olhou para mim, eu não respondi nada, então ele continuou.
“Já conversei com o chapeleiro e com o policial, o primeiro me disse que você tentou comprar o chapéu que, no entanto, já estaria vendido. O policial aceitou relevar sua tentativa de fuga, então todos ganharão se deixarmos nisso mesmo, de acordo?”
Eu estou tão nervoso que nem sei o que dizer, mas a proposta me pareceu safistatória, no entanto, quando estou nervoso falo besteira...
“O chapeleiro está envolvido em uma conspiração”, se eu tivesse respondido “tudo bem, onde assino?” eu já estaria indo embora...
“Uma conspiração?”, o ar de tranqüilidade do delegado mudou abruptamente. Mas não parece ter levado a sério, na verdade ele ficou irritado, porque já eram quase três da tarde e ele nem tinha almoçado ainda.
“Olha senhor...”, ele pegou a ficha para relembrar meu nome, embora eu tenha certeza que só é parte de uma encenação para me diminuir perante sua reivindicada autoridade “... Monteiro. Eu realmente não estou aqui para brincar. Isso não é uma brincadeira, você acabou de cometer um assalto, foi pego em flagrante... eu quero almoçar e você quer ir pra casa, então vamos fingir que você não falou a palavra ‘conspiração’ aqui, ok?”
Ele me deu uma segunda chance e desta vez eu estava um pouco mais tranqüilo, então diante da corrupção policial que se projetava covardemente sobre meu triturado senso se justiça, aceitei assinar os papéis e voltar para casa. Era um caso para ser resolvido sozinho.
Já são mais de três horas, fui descendo a escadaria da delegacia sem olhar para trás. Estava um dia muito bonito, a temperatura muito agradável. Embora o metrô fosse o meio mais rápido para chegar em casa resolvi ir a pé, tentando colocar em ordem os acontecimentos extraordinários daquele dia. Embora minha vontade seja voltar à chapelaria e mais uma vez tentar tomar posse daquele chapéu, não seria uma boa idéia hoje, quando tinha acabado de ser preso por essa mesma tentativa frustrada. Então simplesmente fui andando, me levando automaticamente pelas ruas até chegar em minha casa, um apartamento de quatro cômodos no quarto andar daquele cinzento prédio residencial que permanecia vivo, sozinho, naquele bairro tomado pelo comércio. Era um bom lugar, mas meio barulhento. Eu não ligava pro barulho, dormia bem e dormia pra caramba.
Foi uma boa caminhada, não consegui colocar os pensamentos em ordem, mas eles ao menos ficaram fresco em minha mente quando cheguei em casa um pouco antes das cinco, tirei meus tênis e me joguei na cama. Não estou planejando dormir, apenas descansar minhas pernas, mas o sono veio mesmo assim. Há alguns metros de mim o homem sem rosto na plataforma de embarque do metrô, os vagões passando vazios em sua frente, ele acena para mim...
 (Continua...)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pulei, mas não caí




Não é que estou desesperado, não é que o mundo está de cabeça para baixo, não são os problemas. Os problemas suscitam soluções, sob o caos repousa a esperança de dias melhores. Mas é que não tenho problemas, é justamente em função disto. Mormaço. Está tudo tão em seu lugar e meu lugar não é aqui. Desafiei o mundo durante toda minha vida e sempre fui vencido. O mundo me venceu, eu fracassei e fracassando percebi meu lugar – outro lugar.
Então, é justo nessa tarde de segunda – exatamente aquela tão distante de alguma tarde que poderia ter, por sua natureza, por seu lugar relativo aos outros dias do calendário, algum significado – que eu desisti. Para o alívio e a felicidade de todos que tiveram o desprazer de presenciar, de algum modo, minha fracassada tentativa de viver, eu desisti. Cheguei meio bêbado em casa, cambaleando as razões pelas quais sempre bebi, isto é, tentar ser algo que nunca fui. O álcool sempre foi muito simples em minha vida, eu bebo para engolir, para engolir a mim mesmo, aos outros, a minha vida. E, não à toa, meu estômago sempre foi fraco, minhas tentativas de digerir meu miserável cotidiano sempre acabaram no vaso sanitário.
Não por acaso me casei com a solidão. Não se sintam tristes por mim, nossa sociedade superestima os malefícios de se viver sozinho. Confesso, no entanto, já cambaleei, já ajoelhei sob os pés da vida, mas ela cuspiu em minha cara, graças a Deus. Mas não acredito Nele; morrer, se deixar morrer, ter papel predominante em sua própria morte, não tem necessariamente e, na verdade, raramente tem alguma relação com a suposta vida após a morte; diz respeito ao agora e ao nunca mais. Mas, enfim, embora já tenha fraquejado, eu persisti em meu único princípio de vida – não ter princípios, confrontar os princípios, desafiar o mundo. É por isso que nunca casei, nunca me entreguei resignado, ao lado de uma cúmplice, aos grilhões da escravidão os quais o mundo em sua cínica conveniência chamou de viver.
Mas ser um contestador, ainda que se apresente a mim como a única alternativa possível, é escuro e silencioso. Meu apartamento não tinha nada que me convidasse a voltar da rua, mas já experimentou dormir na sarjeta? Não cheguei em casa decidido, mas não foi uma decisão imediata que tomei enquanto olhava a vista da sacada do oitavo andar, o vento que toca minha face enrugada (precocemente)... e como seria poético se balançasse meus cabelos que, no entanto, o mundo, pois é, resolveu levar... Não foi fruto de nada disso. A decisão foi se desenvolvendo à luz ( na verdade à falta dela) dos anos, durante cada segundo mal vivido que sonhavam, embora temessem, o dia em que simplesmente deixariam de ser vividos.
Meu desafio final, enfim vencerei o mundo. “Ainda que esteja morto viverá”, bom, talvez não, mas a morte é minha, é o modo final de olhar para o mundo e dizer-lhe triunfante, depois de tanto dele ter apanhado: “Tchau, cretino!”. Joguei-me enquanto, num microssegundo, que precedeu o início de minha queda, me deparei com um dilema que, agora, pensando bem, deve ser clássico aos mortos voluntários. Pensei sobre o caráter de minha decisão, seria ela uma demonstração de coragem ou de covardia? Em um relance poético sentenciei: “Covardia corajosa!”. Coragem covarde? Nada disso. Pulei, mas não caí.
Uma fábula surge em minha cabeça. Ela é recorrente em minha vida, como um pesadelo que martela em minha mente, todos os dias, durante anos, só que ela aparece diante de mim quando estou acordado. Fui eu quem criou, do nada – como num sonho. Nela eu sou um cão – e acaba aqui o que há de positivo na fábula. Estou farejando algo ao longo de um labirinto. Mas não farejo um odor, farejo uma idéia – não sei qual. Quanto mais intensa e densa a idéia que farejo, mais para dentro do labirinto estou e, portanto, mais perdido. Quando sei que estou muito perto dela, de repente não sou mais um cachorro. Sou um humano, sou eu mesmo. Perdido e sem faro. Daí em diante vago perdido pelo labirinto, sem saber se em busca de uma idéia a qual não me resta nem um remoto traço da época em que ainda gozava dos talentos caninos, ou se da saída a qual quanto mais procuro mais distante estou. E, assim, vivi infeliz para sempre...
Não sei ao certo porque esta fábula me veio neste momento, o fato é que pulei, mas não caí. Não posso dizer com precisão o que me acabou de acontecer, na verdade desconfio da dos fatos que se sucedem, embora os testemunhe. Pulei da sacada e ao invés de cair eu subi. Não como um balão de hélio; o mundo virou de ponta cabeça e, em um primeiro momento, eu andava no céu como se este fosse um chão sólido e, acima da minha cabeça, estava o chão, agora céu. Mas foi assim só por um momento, em seguida o céu voltou para cima da minha cabeça e o chão estava sob meus pés – eu estava intacto, pisando a calçada em frente ao meu prédio. As pessoas andam alheias, os carros seguem seus caminhos ignorando o que acabou de acontecer.
Não obstante o fato fantástico que acabara de se suceder, embora a o mundo tivesse dado uma volta ao redor de mim, algo permaneceu igual. Desafiei o mundo e fui vencido. Tentei desfrutar do único aspecto de minha vida que cria dominar, mas, oras, não caí! “E por quê?” gritei, em súplica, com os braços voltados para os céus, em uma cena cinematograficamente ridícula. Como o silêncio me respondeu, segundo o esperado, nada, resolvi, num lúcido (se considerarmos as circunstâncias) acesso de insanidade (se levarmos em conta a literatura psiquiátrica), eu mesmo responder. Mas não era exatamente eu... ok, o diálogo acabou de tender fortemente para o lado da loucura. “Porque escolheu um adversário muito grande para vencer sozinho. E ao mesmo tempo não tem o apoio de uma sombra sequer. Cuspiu em todos os princípios da guerra, quis o mundo sem nem ao menos ter controle de si próprio. És um fracasso em si mesmo, qualquer tentativa de conquistar qualquer aspecto da vida se traduz na exteriorização de seu fracasso interno...” e continuaria me ofendendo ad infinitum se eu não interrompesse. Parece, de certo modo, um diálogo com minha baixo alto-estima, ou a visão crítica sobre mim mesmo (latente e escondida em algum canto de meu subconsciente), que são, na verdade, as mesmas coisas. Mas não era. De fato alguma força exterior tomou conta de meu corpo e, assim, construía um diálogo comigo mesmo.
“O que eu podia fazer?” respondi em tom de alto-piedade. “Não nasci para aceitar a pressão do mundo. O que poderia fazer se não tenho os meios para mudá-lo? Aceitar? Nasci com a peça da resignação faltando...” no que a ‘entidade’ retrucou: “Nasceu sem quase nada, na verdade. Caso a construção da vida fosse uma linha de montagem, você seria um refugo, um produto estragado que fugiu aos olhos do controle de qualidade. Mas não é este o problema... nascem pessoas erradas todos os dias...” “Mas a maioria delas passa pelo mundo sem serem percebidas”, interrompi triunfante, crendo em minha superioridade revolucionária. “...Mas és uma fraude. És o protótipo da fraude. Veste Napoleão, Marx e Gandhi, mas és oco; tens a roupa, mas lhe falta aquilo a que ela veste. Quando a fortuna lhe bate a porta, te falta virtú.” Eu não consigo acreditar: “Está sendo injusto... a sorte só conheço de nome. O mundo sempre me negou oportunidades, sempre contrariou meu projeto...”. “Vejo que as palavras se esgotarão sem preencher a nada. Vou tentar fazê-lo entender de outro modo. Ande, faça o caminho daqui até o parque central; esta caminhada, acredito, mudará sua vida”.
São cinco ou seis quarteirões de meu prédio até o parque central. Embora cético quanto à possibilidade daquela caminhada “mudar minha vida”, comecei a andar. As previsíveis ruas noturnas dessa cidade expõem seus tantos transeuntes que desfilam a sujeira que os respeitáveis cidadãos sempre escondem do público, guardando entre quatro paredes, com um efeito de hipocrisia moral. Em um caso ou no outro, o resultado final é mediocridade.
“Seu grande problema. Talvez o pior dos seus inimigos, aquele a quem nunca sequer ousou enfrentar... mas continua andando, não creio que esteja pronto para aceitar”. Diante daquelas palavras, continuei meu caminho, jogando meus olhos críticos a cada detalhe que me cerca. Há menos de meio quarteirão está aquele bar iluminando a esquina com as trevas espirituais dos alcoolizados que, diferente de mim, bebem para celebrar a decadência humana. A mesma humanidade que, tão logo se fez existir, desce as escadas rumo ao precipício sem fim da vida. Já em frente do bar, falei comigo, quero dizer, falaram comigo através de mim: “Te vejo sentado no bar compartilhando suas frustrações tão menos únicas quanto você faz parecer em suas observações idiotas sobre os bêbados quase a caírem no chão”. Não respondi, não entendi bem o que quis dizer, ele... eu... enfim. Mas aquelas palavras entraram de um jeito curioso em minha cabeça, a serem digeridas pela reflexão de meu raro discernimento racional. Para calar o constrangedor silêncio, continuei andando. Já estou próximo do parque central e, no entanto, minha vida ainda não havia mudado para sempre... Lá está Mucoco, o vira-lata preto e cinza, sujo e fedorento, deitado em frente à fachada daquela padaria. Isso quer dizer que já passam das quatro. Sempre uma hora antes das cinco, que é a hora que a padaria abre, o cão espera por um pedaço pão, que sempre recebia do bondoso, embora burríssimo, padeiro. Passar por lá àquela hora significava uma oportunidade de eu lembrar como os cães são superiores aos humanos – sinceros e belos, roem o mundo e sobrevivem a ele o enfrentado. “Certo” – começou aquela voz – “agora você está delirando. Você admira os cachorros sobretudo porque são incapazes de reconhecer a si próprios. Mas o que neles é incapacidade, em você é fraqueza, é covardia”. “O que exatamente quer dizer com isso?”. “Ainda não. Chegue ao parque, está quase entendendo, acho. Mas antes chegue ao parque.”
O parque estava fechado, ele abre às seis horas. “Devo esperar?”. “Já esperou demais. Leia a placa”. O portão metálico tinha uma placa parafusada a ele. Nunca havia lido nada além das palavras em destaque, escritas em letras maiúsculas: “FECHADO”, mas havia um texto interessante o qual nunca reparei, lê-se: “Horário de funcionamento: das 6h às 20h”, mas não é esta a parte interessante, o texto segue: “O Parque Central não funciona durante a noite. Por favor, pedimos sua compreensão, os animais precisam descansar. As regras têm sentido, As regras se baseiam nos hábitos dos animais. As regras são naturais.”. Estava a contrariar a mim mesmo, a desconfiar de minhas convicções, passo a estranhar a mim mesmo...
A voz então começou: “Não que eu tenha que lhe dar satisfação, mas me preocupo com sua incredulidade, com sua teimosia doentia... este é o primeiro ponto. O segundo ponto... você já se deu conta? Sobre o quão comum tu és? Que você mesmo, tanto quanto aqueles que te rodeiam, é um medíocre. Encare isso, você é medíocre. Percebe a mediocridade em cada esquina, em cada bar, igreja, padaria ou escola, mas não percebe aquela que lhe está mais próxima, sua própria mediocridade. Aquilo que te limita, aquilo que está entre suas ambições e o mundo – você.”
Não precisei responder, tremi diante da realidade e meu semblante traduziu que eu acabara de digerir as coisas que sobre mim se jogaram ao curso de minha vida, mas, sobretudo, digerira a mim mesmo e só assim pude entender, mais ou menos, o mundo e a vida sob os olhos de uma pessoa que renasce justamente através das bases as quais sempre tentei derrubar – as da resignação, mas agora sobre uma nova visão: aceitação da realidade.
“Agora já pode cair.”.
Caí, morri, venci e perdi – vivi.

domingo, 3 de outubro de 2010

Não entendo a fé política




Escrever sobre política, hoje em dia, é complicado. É como escrever sobre religião. Ora, seja para acreditar nas palavras de um político, seja para acreditar em um deus, é preciso fé. E quando se trata de fé não há discussão, se acredita e pronto. A diferença fundamental que me leva a escrever sobre política e questionar as decisões feitas neste meio e não no campo da fé religiosa é que os militantes são crentes de deuses vivos. Deuses que, convenhamos, estão mais para demônios.
É claro que se muda o mundo usando da fé religiosa, se faz guerras, e até se ganha prestígio na política, mas daí é política vestida de religião – é política e ponto final. Eu poderia dar milhares de exemplos de coisas que parecem religião, mas são, na verdade, política: a Igreja, por exemplo, é a santa instituição criada por Jesus Cristo para cuidar de assuntos religiosos aqui na terra, certo? Errado! É uma instituição política que nos tempos livres dá palpites religiosos, embora diga o contrário. E olha que eu sou católico praticante. As coisas humanas são por natureza, ou melhor, por suas origens sociais, política. E se Jesus pediu para homens cuidarem de seus assuntos divinos enquanto ele estivesse ao lado direito de Deus, lá em cima, ele deixou coisas religiosas sob o cuidado da política, com todos os riscos que isso pode acarretar e, de fato, acarretaram ao longo de mais de dois mil anos. No fundo, no fundo, toda religião é política, pois, a despeito do que elas pregam, são todas humanas.
Mas e a política mesmo? Digo, aquela sobre a qual nos ocupamos aqui no Brasil a cada dois anos? É difícil falar sobre ela, é complicado dizer qual candidato é melhor que o outro, mas é, sobretudo, impossível entender como algumas pessoas se entregam com tamanha paixão e devoção a uma escolha política na política brasileira de hoje.
Vamos simplificar: a corrida eleitoral para a presidência do Brasil a partir de 2002. Neste ano, concorreram como principais candidatos José Serra (PSDB) e Lula (PT). Neste ano ainda era compreensível as paixões que se moviam. O PT ainda estava com sede de poder, depois de perder todas as eleições para presidente desde 1990, Lula enfim parecia que ia ganhar, e ganhou em 2002 de Serra. Vejo sentido nas emoções que esta conquista do operário pobre que virou presidente despertou na população, nos vencedores e nos perdedores. Entendo a militância ideológica nesta época, embora eu já a considere ingênua, ao menos ela fazia sentido – tínhamos de um lado o projeto de continuidade conservadora dos tucanos que temiam o barbudo socialista do partido de bandeira vermelha e que era, ora pois, dos trabalhadores. Do outro lado havia os ainda nostálgicos petistas, da época de um PT que era um partido dos trabalhadores, preocupado com os interesses dos trabalhadores. Parecia, e eu disse “parecia”, uma disputa entre direita e esquerda. Pelo menos nas aparências havia dois projetos bem distintos. Foram oito anos de poder, e a cada ano que passou o PT foi morrendo, ou melhor, foi se adaptando a política que temos hoje, foi se tornando o PSDB.
Mas no meio deste processo, entre estes oito anos de Lula, houve outras eleições em 2006: Alckmin conta Lula. Oposição contra posição. Oposição de quê? PT e PSDB se confundiam. Quatro anos foram suficientes para que o Partido dos Trabalhadores mostrasse que, a despeito da bandeira vermelha (que remete a simbologia socialista) e o “trabalhadores” no nome, não havia nada mais de socialista ou de trabalhador nele. Era o PT, mas poderia ser o PSDB. Em 2006 deu o PT, deu Lula de novo, e lá se foram mais quatro anos de PT – que poderia ser PSDB. Alguém notaria a diferença? Talvez o Alckmin e sua equipe tucana não tivessem tido a criatividade de marketing para seus projetos sociais tanto quanto teve o Lula com os geniais “Bolsa Família” e “Fome Zero” – porque o marketing social do PT, ao longo destes oito anos, foi brilhante. E Lula tem virtú que é aquela coisa que Maquiavel, em “O Príncipe”, compara com fortuna. Se trouxermos os conceitos para os dias de hoje, virtú englobaria as qualidades que se atribuem a um bom político, no sentido de parecer ser um bom político e não necessariamente sê-lo. A fortuna são as oportunidades que cada político recebe independentemente de merecimento próprio – guardem isso, vou usar quando falar da Dilma Roussef. Então, tirando o marketing social e a virtú  do Lula, os governos PT e PSDB foram, salvo pequenas diferenças e, a despeito das expectativas que haviam com a posse do Lula, em 2002, rigorosamente iguais.
Então, depois de oito anos de PSDB com o então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) e oito anos de PT com Lula, chegamos a 2010. Em 2010 a disputa é, de novo, entre PT e PSDB. Pois é, já perdeu a graça. São sempre os mesmos partidos, mas é pior, são os mesmos partidos que são, na verdade, as mesmas coisas. Hoje o PT é o PSDB, com a diferença de que o PT ainda usa a estrela vermelha e o Lula ainda é barbudo o que acaba por assustar alguns direitistas conservadores. Para algumas pessoas a embalagem política ainda faz alguma diferença, mas daí precisavam avisá-los que passaram a vida inteiro votando num partido que se veste com o nome da social-democracia. O PT é hoje tão vermelho e “dos trabalhadores” quanto o PSDB sempre foi social-democrata.
Mas nada disso importa porque, ao que parece, PT e PSDB ainda são na política brasileira o que Brasil e Argentina são no futebol mundial, ou o que judeus e palestinos são para a paz mundial. E é precisamente isso que não consigo entender. É claro que se deve escolher entre Serra e Dilma Roussef, do PSDB e do PT, respectivamente, mas não necessariamente respectivamente, mas, por acaso, respectivamente. Não vejo absolutamente um ponto em que se diferem. É claro, Serra tem carreira política, já se sabe o que esperar dele, qual é seu projeto (ou falta de projeto) e sua visão política. Basicamente continuar a política neoliberal – mas não tão radical quanto na Inglaterra de Thatcher – iniciada no governo FHC, mesclada com migalhas de assistência social. Exatamente como fez Lula em seus oito anos, só que este, como já observei acima, soube se aproveitar da propaganda para que todos os pobres do Brasil tivessem a certeza de que o dinheiro que recebem  é fruto da generosidade do presidente. Maquiavel se orgulharia de Lula, ele é o príncipe do Brasil, fosse outra época, ele passaria décadas aqui e sendo amado pelo povo.
Mas se Maquiavel daria nota dez para Lula, desprezaria sua criação: Dilma Roussef. Dilma não tem virtú nenhuma, não sabe falar em público, não tem carisma, é feia e parece ser má (e não em um bom sentido maquiavélico) – eu tenho medo dela, não de suas políticas, mas dela, de sua horrível imagem que continua sendo pavorosa mesmo com o que há de mais tecnológico a disposição para fazer dela uma política apresentável. Mas o Lula tem tanta virtú que disse para o povo:
- Esta porca feia é minha candidata, votem nela e continuarão recebendo o bolsa família. Ela é feia como o satanás, mas é minha candidata. O Serra vai privatizar o bolsa Família.
E o povo vota na Dilma, há um ano nenhum bolsista do programa social do Lula sequer tinha ouvido falar dela – e ela quase levou no primeiro turno. Isso é fantástico, falem o que quiserem do Lula, mas ele merece um lugar de destaque na história dos grandes líderes da história mundial. Mas no fundo são dois projetos iguais de continuidade, por isso não entendo quando alguém se exalta em defesa de um de outro candidato. Defender Dilma ou Serra é a mesma coisa que defender Skol ou Brahma, você pode até preferir uma a outra, mas não vai ter uma crise se não tiver a marca de sua preferência em um churrasco. Pois então, me espanta como ainda persistem eleitores que acreditam em algo que não está lá.
Muitas pessoas te olham com indignação se você diz: “estou INDECISO, mas ACHO que, TALVEZ, eu vote no Serra...”, logo respondem:
- Serra?!?!?!?! Você está louco? O Serra é um monstro!!! Ele vai assassinar a educação, vai dar meio salário mínimo para os professores e vai levá-los a um campo de concentração. Vai privatizar as ruas, sua casa, seu cachorro, seus livros, sua esposa, sua mãe!!! Blá, blá, blá...
Eu concordo com ressalvas. Mas, sinceramente, e daí? E a outra candidata? Ela não herda uma mesma política de completo descaso com a educação pública? Educação não é tanto para um quanto para o outro um meio de obter fins políticos? Não é por isso que criou projetos como o Reuni e o Prouni? Que se aparentemente são muito bons:
- Eba! Meu filho é um retardado analfabeto, mas agora graças ao PT vai pra facuuuuul!!!
Mas que faculdade é essa? É aquela em que nossos avôs e nossos pais estudaram? Ou é uma que está em processo acelerado de sucateamento? Em que se colocam professores recém formados para dar aula em uma turma de cem alunos? Uma faculdade que não consegue atender os interesses mínimos de seus alunos, que é produtora de ciência por excelência, mas não tem programas de iniciação cientifica para quase ninguém, que falta instalações e equipamentos? Que bosta de projeto educacional é este do PT que é tão melhor que o do satânico José Serra?
E sobre as privatizações: o PSDB achou legal por um tempo privatizar as coisas, eu não concordo com isso, mas alguém viu o Serra defendendo, em algum momento, as privatizações? O Serra não vai mais privatizar nada e não porque não concorde com isso, mas porque é algo impopular e a única coisa que ele ou a Dilma querem assim que subirem a rampa do Planalto, no dia Primeiro de Janeiro de 2011, é planejar sua reeleição em 2014 – então esqueçam educação, esqueçam projeto de longo prazo, pensem em medidas eleitoreiras, pensem em enganação – este será o seu Brasil pelo menos nos próximos quatro anos.
Um nome merece aparecer aqui, merece aparecer em algum lugar – é o de Plínio Arruda de Sampaio. Ele fez a eleição ser algo mais que monótona, mas menos de 1% dos eleitores brasileiros notaram. Plínio foge do padrão de se fazer política de hoje, e hoje a política é triste, a democracia é triste. É triste porque nos acomodamos, é triste porque sabemos que está ruim, mas não está ruim o suficiente para querermos que melhore. Porque as grandes coisas só aparecem por trás da poeira levantada do caos – então que venha o caos porque entre Serra e Dilma eu prefiro anular meu voto.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ode to Madness



Nada que me parecesse estranho era, no final das contas, estranho. Era comum, banal, como uma bala no cano, como um tiro disparado, como uma cabeça estourada, como uma vida que se ia.  E vão, ainda que você não se dê conta, elas vão e não voltam. As vidas.
Subindo as escadas, as escadas que descem até o precipício da vida - a morte. É o caminho inevitável. Não sou pessimista nem realista, sou um rato que cruza o caminho e desvia das ratoeiras até que elas são muito reais, até que são mais reais que o desvio delas – aí é tudo tão irreal.
É tudo da minha cabeça, é claro. Mas não deixa, assim mesmo, de ser. Mas não é para os outros. E isso é difícil porque os outros são mais do que você; para os outros evidentemente, mas, eventualmente, também pra você. Somos muito mais os outros do que pensamos, somos muito menos nós mesmos do que queremos ou podemos admitir. Somos cópias mal feitas dos vermes que nos rodeiam; pegamos o que há de pior em cada desprezível espécime de idiota na face da terra e chamamos isso de eu. Grande merda, você é uma merda maior ainda por ser você, se esforce para evitar isso – ser você. Não queira isso e, sobretudo, não encare isso como uma coisa positiva.
E, talvez por isso, eu prefiro ser minhas idéias, meus pensamentos distorcidos, fujo do que parece correto, porque só parece correto porque não é. Então vivo no incomum, no que as pessoas pisam e que pisam exatamente porque tem muito valor, porque as coisas pisadas são dignas da indiferença de cada podre alma humana, não há nada mais a se almejar que não isso. Em minhas idéias, em exclusivo àquelas das quais você ri, e ri porque está viciado em sua própria idiotice a qual compartilha com todos que riem COM você de tudo aquilo que ri DE você. Tudo ri silenciosamente de você, de cada aspecto patético de ser você, de ser um ridículo macaco com o prolixo e, mais ainda, duvidoso dom da inteligência. Enfim, estas minhas idéias, exatamente estas que riem de você, em silêncio para que você não ouça o que lhe é demasiado para o que tem de tão pouco – aquele negócio que faz uns macacos serem chamados de humanos, você tem um nome para isso, inteligência. Eu também sou, lamentavelmente, vocês, mas sou cada vez menos o quanto mais me fixo nessas idéias que são estranhas a vocês. E hoje posso dizer que sou quase tão elas que acabo sendo tão estranho a vocês que acabam me vendo no espelho quando abrem os olhos... quem sou eu? Tempo, tic, tac, tic, tac...
Ora, sou vocês, o que todos vocês seriam caso não fossem tão covardes em admitir o quão estranhos são a si mesmos sendo assim, normais.

Porque às vezes um pouquinho de loucura é saudável à sanidade.

domingo, 18 de julho de 2010

É preciso saber viver?



É preciso saber viver, mas não se sabe como. Ela surge como uma exigência covarde dos outros à você e à sua vida; covarde porque todos dizem para você viver corretamente sem saber nem ao menos o que isso pode significar. Ele esperava por coisas grandes, porque era fantástico, era um gênio, um futuro brilhante o aguardava – tinha certeza. Só que ele não era o tal, nem era parte daquilo que vivia acreditando ser, ele era apenas medíocre, mas viveu como se fosse alguém a mais do que era, alguém que vivia com a promessa de tudo que lhe aguardava; exceto que nada lhe aguardava, que nada lhe fora prometido, nada além de sua falsa crença sobre si mesmo.
Muitos diriam que ele é um coitado, vivendo sua vida fracassada, mas isso é apenas um ponto de vista. Sua vida não seria vista como fracassada se  se levasse em conta que ele tem exatamente o que seus talentos lhe possibilitariam ter, isto é, quase nada. A todos destina-se quase nada, e, no entanto, insiste-se em dizer que estes são fracassados. Fracassados de que vida? Uma vida que não lhes pertence, nunca fora suas, só lhes pertencera em sonhos. Sonhos vendem-se em todas as esquinas da grande cidade, mas o que esquecem de dizer é que poucos poderão comprá-los. Pois ele não pôde.
Não queiram, portanto, condenar as pessoas por não serem o que não são. E, sobretudo, não condenem a si mesmos por não serem o que nunca poderão ser. Há dois maus que cabe a humanidade evitar, um deles, o mais comum, eu ignoro aqui. Não porque é evidente ou pouco importante, mas porque não é a história que estou contando. Falo das pessoas que subestimam suas próprias capacidades, está cheia de pessoas que impõe limites a si próprias que são maiores que suas escassas capacidades. Isso é sim triste, mas não é o problema dele, e é dele quem falo. Ele foi incapaz de evitar o segundo mal.
Ser comum e viver como se fosse alguém especial, eis o segundo mal. Ser frustrado é sua sina. Não importa o que se faça, nenhum feito seu é maior do que si mesmo, nada pode mover o que é imóvel. Não se enganem, o acaso só existe para quem não o procura. Se você o procura e o encontra, encontrou outra coisa, pois o acaso simplesmente não se acha – ele te acha. Então, se eu pudesse dar uma dica de como se viver eu diria pra você viver segundo o que tu és, não segundo o que queres ser. Não se fruste e não se acanhe, apenas faça o que faria porque é o que você pode fazer.
Tolice, porque eu apenas alertei, mas não disse o mais importante, não disse quem você é. Não sei. Não sei quem tu és nem quem sou, isso a vida ensina, então aprenda. Ele não aprendeu. Uns nunca aprendem.