domingo, 18 de julho de 2010

É preciso saber viver?



É preciso saber viver, mas não se sabe como. Ela surge como uma exigência covarde dos outros à você e à sua vida; covarde porque todos dizem para você viver corretamente sem saber nem ao menos o que isso pode significar. Ele esperava por coisas grandes, porque era fantástico, era um gênio, um futuro brilhante o aguardava – tinha certeza. Só que ele não era o tal, nem era parte daquilo que vivia acreditando ser, ele era apenas medíocre, mas viveu como se fosse alguém a mais do que era, alguém que vivia com a promessa de tudo que lhe aguardava; exceto que nada lhe aguardava, que nada lhe fora prometido, nada além de sua falsa crença sobre si mesmo.
Muitos diriam que ele é um coitado, vivendo sua vida fracassada, mas isso é apenas um ponto de vista. Sua vida não seria vista como fracassada se  se levasse em conta que ele tem exatamente o que seus talentos lhe possibilitariam ter, isto é, quase nada. A todos destina-se quase nada, e, no entanto, insiste-se em dizer que estes são fracassados. Fracassados de que vida? Uma vida que não lhes pertence, nunca fora suas, só lhes pertencera em sonhos. Sonhos vendem-se em todas as esquinas da grande cidade, mas o que esquecem de dizer é que poucos poderão comprá-los. Pois ele não pôde.
Não queiram, portanto, condenar as pessoas por não serem o que não são. E, sobretudo, não condenem a si mesmos por não serem o que nunca poderão ser. Há dois maus que cabe a humanidade evitar, um deles, o mais comum, eu ignoro aqui. Não porque é evidente ou pouco importante, mas porque não é a história que estou contando. Falo das pessoas que subestimam suas próprias capacidades, está cheia de pessoas que impõe limites a si próprias que são maiores que suas escassas capacidades. Isso é sim triste, mas não é o problema dele, e é dele quem falo. Ele foi incapaz de evitar o segundo mal.
Ser comum e viver como se fosse alguém especial, eis o segundo mal. Ser frustrado é sua sina. Não importa o que se faça, nenhum feito seu é maior do que si mesmo, nada pode mover o que é imóvel. Não se enganem, o acaso só existe para quem não o procura. Se você o procura e o encontra, encontrou outra coisa, pois o acaso simplesmente não se acha – ele te acha. Então, se eu pudesse dar uma dica de como se viver eu diria pra você viver segundo o que tu és, não segundo o que queres ser. Não se fruste e não se acanhe, apenas faça o que faria porque é o que você pode fazer.
Tolice, porque eu apenas alertei, mas não disse o mais importante, não disse quem você é. Não sei. Não sei quem tu és nem quem sou, isso a vida ensina, então aprenda. Ele não aprendeu. Uns nunca aprendem.


sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aquele Domingo (Parte I)

Este é um texto que escrevi e ficou meio grande, por isso vou postar no blog em várias partes, mais ou menos como capítulos de uma novela. Na verdade, apesar de ter a ideia completa do "conto", não a terminei de escrever, mas já tenho bastante coisa.



Buscava inusitada lógica na constelação de falta de razões. Eu não estava chapado, o mundo é que estava estranho aquele dia – estranho como um sonho, mas eu estava acordado. Acordei bem cedo pra falar a verdade, e eu odeio acordar cedo. Dormir é uma das coisas que mais me davam prazer (e ainda dão, embora o presente não venha ao caso), isso é triste. Era domingo, dia que nenhuma obrigação idiota lhe faz acordar cedo, acordei cedo porque quis. Num domingo, isso me espantou, de verdade.
O que fazer numa manhã vazia de domingo? Eu (percebi isso naquele dia) nunca havia vivido uma manhã acordado, a não ser quando tinha que acordar para ir a alguma aula idiota ou um trabalho mais idiota ainda, mas nunca havia acordado cedo e ficado refém de minhas próprias vontades em um oceano de oportunidades. No caso eu era um naufrago que não conhecia o mar; isso é apavorante se você parar para pensar, pois não há nada para fazer em um domingo de manhã. Nada.
De qualquer modo, eu não acordei na forma de um cachorro como Mandi, que é um cachorro, meu cachorro. A bizarrice daquele dia ainda nem começou a ser narrada, eu diria, embora eu tenha estranhamente, por minha própria vontade, acordado cedo, bem cedo. Não eram nem oito horas quando acordei, acho. Um bom tempo depois que me levante da cama, vi no microondas da cozinha que ele marcava 8:04h. Aquele relógio do microondas sempre estava errado, mas não tão errado, nunca exato entretanto. Minha casa fedia, ele sempre estava fedendo e parecia (e era) escura e feia, eu odiava aquela casa. Era suja provavelmente porque nunca fiz uma faxina nem contratei alguém para fazê-la; eu só varria, de vez em quando, o grosso da sujeira para os cantos e, de semanas em semanas, eu jogava alguns lixos, como embalagens e restos de comida, no terreno ao lado que era um terreno abandonado – ninguém compraria aquele terreno, ninguém construiria uma casa naquela merda de rua, nem que ela ficasse a venda por vinte séculos.
De qualquer modo, eu estava com fome – é por isso que estava na cozinha; havia uma chance maior de encontrar alguma coisa pra comer lá, mas não tanto. Tinha muita coisa estragada, podre, ou com uma aparência muito ruim; tinha um lanche de... acho que presunto. Eu odeio presunto e aquele presunto nem cheirava a presunto. Contemplei aquele lanche repugnante por minutos, foi a única coisa que encontrei a qual eu podia cogitar comer, e eu estava com fome, realmente estava. Mas não comi o lanche; tinha uma couve-flor no fundo da geladeira – eu não faço idéia do que uma couve-flor fazia naquela merdade de geladeira, eu odeio couve-flor, ela estava fresca ( se é que se poder dizer isso de alguma coisa em minha casa) no entanto. Teria que me contentar em passar fome ou tomar alguma atitude.
Geralmente eu sento e espero as coisas acontecerem, mas era domingo de manhã e nada acontece num domingo de manhã, nem o acaso. Até Deus estava dormindo. Encontrei minha carteira em meu quarto, entre umas cuecas e camisetas usadas – nossa, como aquelas roupas fediam! Estavam lá jogadas desde a Renascença, eu provavelmente nunca as levaria para a lavanderia, pensei em jogá-las no terreno ao lado do qual eu falei, como os outros lixos, mas aquilo me pareceu, de algum modo, errado, então simplesmente as deixei lá. Dentro da carteira tinha um pouco de dinheiro, o suficiente para comprar algo decente para comer, acho. Tinha diversas outras coisas na carteira, a maioria lixo eu que nunca mais precisaria, mas que por algum motivo eu guardava, mas tinha também coisas interessantes, acho. Mas eu estaca com fome, então focalizei minha atenção nesse fênomeno, muito comum em nossa sociedade, de transformar dinheiro em comida. Eu não fazia idéia de tinha alguma coisa perto de minha casa que estaria aberto vendendo comida em um domingo de manhã. Eu não sairia de casa sem ter na cabeça ao menos uma boa idéia de onde eu iria. Sou um cara um pouco preguiçoso, tenho que adimitir. E era domingo de manhã, por Deus! Resolvi, então, ir até a sala e sentar naquele sofá de couro rasgado. A sala estava escura e fedia, mas o quarto tinha uma atmosfera ainda mais depressiva, então até que foi bom ter ido para a sala.
Encontrei espaço entre os restos de embalagens, lixos e o que mais que tivesse lá, e consegui sentar no sofá. Aquele sofá era bem confortável; eu gostava dele, mas estava sempre sujo e cheio de coisas sobre ele. Mesmo assim sentei nele e comecei a pensar onde podia comprar alguma para comer. Não fazia idéia, abre no domingo de manhã? Alguém sai de casa num domingo de manhã para comprar alguma coisa? Lembrei de uma padaria que ficava à umas quatro quadras de casa, foi o melhor que consegui lembrar. Eu nem sabia se estaria aberta, isso me deu um desânimo e, como que me entregando àquela algoz chamada preguiça, deixei meu corpo se esparramar sobre o sofá como um saco de cimento pesado que só poderia ser tirado de lá a custas de muito esforço. Eu nem estava mais com tanta fome.
Eu estava quase dormindo, lá no sofá mesmo, quando o telefone tocou. Eu sabia que tinha um telefone escondido e, algum canto daquela sala, mas não sabia que ele ainda podia tocar. Por algum motivo aquele toque irritante me alegrou; encontrei o aparelho a tempo, enquanto ele ainda tocava. Quem poderia ser, tinha o pressentimendo de que se tratava de alguma coisa importante, mas o que é o pressentimento?
   CONTINUA...



quinta-feira, 13 de maio de 2010

Absurdo



“Você está chovendo”. O que faz dessa afirmação um ultraje à normalidade aparente que repousa desesperada no fresco ar dos bosques, pronta a precipitar em insanidade sem limite; um quê sem nome que faz de nós – mas não todos nós – normais. O que desafia este teatro e nos leva aos bastidores de sua mente não é que não chovia, mas que não molhava. Pois a todos faria sentido que cada um chovesse se ao mesmo tempo molhasse; a chuva molha e, não obstante, ele não molhava, logo não podia estar chovendo.
Mas ainda assim vejo chuvas secas em cada um, não é meu objetivo me defender de minha loucura, ela me pertence, assim como pertence ao seio da humanidade. Nada disso, no entanto, importa. Se, hipoteticamente, um homem bem vestido, de terno, não terno vagabundo, daqueles xiques, um cara claramente importante que além do terno que enfeitava seu respeito, vestia importância – isso ficou claro em seu olhar, seu andar, em seus gestos, salvo seu indicador direito. Sou observador e digo, seu indicador direito lhe entregava seu íntimo, ou seja, sua sujeira, pois no íntimo somos todos nós sujos, podres e, às vezes, por mais que resistamos a sujeira nos escapa de algum modo, transborda de nossos corpos; no caso, pelo indicador direito: fraco, vacilante. Mas, de qualquer modo, este homem importante vem e lhe pergunta (como voltaria a perguntar muitas vezes):
- O que é absurdo?
“O que é? As pessoas choverem, talvez?”
- Você pode fazer melhor.
Posso, de tantas coisas, tanta gente, é algo que chamaria de pretensioso chamar a mim mesmo e às minhas idéias de absurdas.
- E o que é absurdo – ele insiste.
Talvez eu precisasse de tempo para pensar e, no mais, não é uma boa idéia deixar um sujeito importante esperando, de sorte que ele já foi (acabou de ir) e desde então o relógio marca as horas que faltam para ele voltar.
Naquele dia saí de casa e fui andando por aquelas ruelas semidesertas, era quase dia quase noite, mas nem amanhecer nem entardecer, vai entender. Os vultos passavam por mim sem despertar o mínimo interesse. Naturalmente; por que razão haveria de me despertar interesse aquelas pessoas indo para o lugar nenhum de seu cotidiano, cantando em uníssono o hino do silêncio? Cientistas da ignorância, escravos dos outros presos dentro de si mesmos, servos voluntários, pessoas que fogem a mim. As pessoas são interessantíssimas se observarmos detalhadamente, mas naquelas ruas escuras, iluminadas por uma sobra de luz suja, elas eram como formigas percorrendo seus caminhos pré-estabelecidos. Tedioso.
Acontece que naquele mesmo caminho, naquele mesmo desinteresse que ilustrava minha mente, caiu um meteoro de interesse, um meteoro que na verdade era uma estrela cadente e que naturalmente brilhava, e se já não há “surpreendente” o suficiente nesta metáfora, me surpreendeu o fato de se tratar de uma pessoa. Mas não uma pessoa qualquer, uma pessoinha; eu diria se tratar, mas não com certeza, de uma criança. Ela engatinhava no chão, este certamente imundo e isso, apesar de estranho, não é um absurdo, de modo que me perturbava com tão pouco tempo sobrando ocupar minha atenção em algo tão sem importância.
Peguei a criança no colo; não sei segurar crianças, então a segurei como se fosse uma bolsa e me surpreendi quando percebi que na verdade era uma bolsa. Apesar do escuro enxergava-se, sem muito risco de erro, se tratar de uma bolsa amarela. Com o braço direito segurei a bolsa pela alça, ela era pesadíssima. Tão pesada que eu não poderia segurar, mas segurava; a segurava na medida em que me parecia o certo a se fazer. Achei melhor abrir a bolsa só quando estivesse de volta para casa, o conteúdo me parecia muito importante para tão indignas ruas; minha morada não era sequer digna de mim mesmo, mas ainda assim convidaria Jesus Cristo a entrar se estivesse mendigando naquelas ruas sujas.
Cheguei em casa, aliviado. Não. Corrigindo: aflito, o coração escaparia por minha boca caso eu a abrisse, mas apesar disso, em casa. Certifiquei-me de que a rua não pudesse invadir minha casa, cerrei a porta e as janelas, e fechei as cortinas. Quero dizer, mantive-as fechadas como já estavam quando cheguei. Fiz tudo isso enquanto ainda carregava a bolsa com a mão direita, de modo que meu braço não suportava mais aquele peso. Coloquei-a cuidadosamente sobre o chão e ela me encarou. Ao mesmo tempo que parecia pedir para que eu a abrisse, parecia adiantar a terrível surpresa que me esperava. A morte seria o consolo de minhas preocupações.
A bolsa tinha uma única abertura, fechada a zíper. Puxei o zíper em um só movimento escancarando uma abertura pela qual saiu aquilo que, não por acaso, pesava tanto. “O mundo sai desta bolsa!” exclamei com um contido entusiasmo cheio de pavor.
- Quase – era o homem de terno que estava atrás de mim observando aquela cena. – Este é o absurdo. – sentenciou.
Era o avesso do mundo, saiu da bolsa e se projetou no universo com tudo que lhe pesava, “são os humanos”, explicou o homem de terno. “E o que sobrou?”, perguntei. “Sobrou você, tirando todo o absurdo do mundo sobrou você”. Mas eu vivo neste planeta, “você vive nele e seus filhos vivem, tímidos e pequenos vocês existem”. Vivo eu e o pouco que há de mim num mundo este em que sou louco, que sou absurdo.



Tumor




Gregori estava completamente desinteressado e de certa forma eu lhe dava razão. Mas por motivos diversos, eu estava com minha cabeça em outro lugar e ele com ela em lugar nenhum. Assistíamos a apresentação por mera formalidade, mas, em verdade – isso me ocorreu de repente – toda minha vida tem sido vivida por baixo das saias da falsidade. Minha vida tem se resumido a sentar em poltronas de anfiteatros, cheirar o ar gelado e mofado por horas a fio, enquanto homens, em geral pouco importantes, mas, sobretudo, pouco autênticos, falavam tudo menos qualquer coisa que poderia me interessar ou interessar a alguém. As vezes eu falava para outros “eus” sentados nas poltronas olhando os relógios como que tentando apressar o tempo, mas com o efeito contrário.
Hoje o tempo parou e o cara não parava de falar; eu chutaria que já falava por séculos não fosse tão familiarizado com tudo aquilo. A contra gosto aceitaria se tratar de não mais que uma hora, não obstante estava mais frio que o comum e, eu sentia um calor que viria da alma caso existissem coisas como almas. Mas não existem, é elegante em minha carreira ser cético e ateu, características que atestam uma certa legitimidade àqueles discursos vazios que, no entanto, são intermináveis, intermináveis! Perdão pela minha histeria, não se trata de um estado de espírito normal, mas é o caso que nesta manhã estou um pouco aflito, nervoso, desesperado. E Gregori, desgraçado, parecia meditar! Tantos anos respirando o ar podre dos – confortáveis – notáveis da mediocridade burguesa pareciam ter enfim resultado em alguma espécie de dano grave a minha saúde. Algum tipo de tumor, assim suponho, se desenvolveu parte em meus pulmões, parte em meu estômago. Hoje, nesta manhã, o tumor parecia dançar dentro de meu corpo. E só não o vomito porque tenho enorme experiência em engolir coisas indigestas; à força tudo se acomoda, em minha carreira não se pode colocar para fora o que não presta, de sorte que não me dou ao avesso por aí.
Minha peculiar interação com meu tumor, com o qual travei uma complexa negociação que consistia na busca de um bem comum para ambos, fez o tempo passar sem que eu notasse e, o palestrante estava para lá da metade de suas palavras de encerramento, de modo que o fim da apresentação coincidiria, com sorte, com um acordo entre eu e meu tumor nos seguintes termos: “tendo em vista que meu corpo é sua e minha morada, para um convívio aceitável você até me sufoca – isso é resultado de seu tamanho e nada se pode fazer em relação a isso – , mas não dance!”. E, de fato, o tumor me deu uma trégua assim que a palestra se encerrou. Saí com pressa enfrentando indesejados cumprimentos, sempre indesejados e falsos é verdade, mas se soma hoje minha necessidade de cair fora daquele anfiteatro e com urgência conversar com Gregori sobre a terrível noite anterior, a noite em que fomos monstros. Em verdade, monstros que somos.
Me dei com o exterior, o ar quente e úmido, impregnado de uma fumaça preta e pesada, mas respirar no momento é luxo. Gregori ainda não havia saído e, provocantemente, demorava. Quando saiu, visto livre de falsos cumprimentos, dirigiu-se a passos largos para seu carro tentando driblar as pessoas no seu caminho. Gregori é alto, demasiado, e andava rápido em direção ao seu carro, de modo que para alcançá-lo tive que trotar. Ele já quase entrava no carro quando, a uns cinco metros dele, tive que gritar:
- Gregori, Gregori! – ele olhou para trás, mas só porque foi impossível ignorar meus gritos; seu rosto carregava o “Oh, Deus! Foi por pouco...” num sincero e manifesto desgosto em trocar palavras comigo. Normalmente eu também faria questão de evitar uma conversa com ele, mas preciso falar sobre ontem. Oh, ontem...
- Ralmi... – é meu nome, eu o odeio até mais que odeio o cotidiano de minha vida, mas acho que, de certa forma, o mereço – Estou com um pouco de pressa...
- Precisamos falar sobre ontem – fui seco e direto, minha, nossa especialidade é a falsidade, mas a ocasião dispensava rodeios formais.
- Não há nada para se falar sobre ontem – Gregori se esquivava do assunto enquanto já projetava seu enorme corpo para dentro daquele carro ( a imagem dele dentro do carro era cômica e eu não sei se isso alivia ou intensifica a tensão da situação).
É apavorante e, de certo modo, surpreendente o modo relapso com o qual Gregori lidava com o pesadelo da noite anterior, de modo que tive que protestar:
- Matamos! Somos assassinos! E a uma criança! – minhas palavras soaram pouco mais altas do que eu queria ou do que era prudente se tratando de tão comprometedora confissão, mas mais do que isso, revelou a sinceridade de meu desespero.
- Está morto, falou bem, de sorte que não temos que enterrá-lo. Morto, não fala. Ontem morreu junto com ele todos os traços de nossa culpa. Então, Ralmi meu caro, esqueça. Esqueça assim como já esqueci; tão cedo hoje despertei, ontem não me existia mais; nada, nem culpa, nem remorso, nem ressaca. – Gregori parecia sincero em cada palavra, a noite anterior parecia não lhe tocar de modo algum e, seu cérebro em consonância com seu coração se operavam em um só mecanismo de racionalidade jurídica. Mas eu, ao contrário, estou devastado e nenhuma garantia de não implicações legais conseguia sequer me consolar:
- Como acordar e esquecer de ontem se sequer consigo dormir? Um câncer nasceu dentro de mim e ele se mexe vigorosamente! – o tumor voltava a se mexer rompendo o acordo agora pouco estabelecido, mas não só dançava: fazia um carnaval. A cólera (seu nome, como me revelou agora) indignou-se diante da passividade de Gregori (e talvez do mundo).
Gregori respirou fundo e já dentro do carro sentenciou através da meia janela aberta:
- Ralmi, sem formalidades, foda-se seu remorso. Digira-o, roa-o e remoa-o, mantenha em seu rabo, procure a bosta de um analista, entorpeça-se, que seja... mas não abra a porra dessa sua boca. Entendeu? Agora, estou com pressa, vou indo. – fechou toda a janela e ligou o motor do carro.
Atônito, nada pude fazer. A ameaça de Gregori me deixou perplexado, mas meu estômago parecia se rasgar (e na verdade se rasgava), os pulmões tornaram-se incapazes de captar oxigênio, o tumor dobrou ou triplicou de tamanho. Indigesto. Depois de engolir a merda de toda a parte durante toda minha vida, vomitei aquele tumor para fora e ele parecia carregar tudo aquilo.
Aquele tumor do tamanho de um porco médio saiu por minha boca e projetou-se direto sobre o capô do carro diante do pára-brisa dos olhos do, agora apavorado, Gregori. Não era só um tumor, tinha o formato de um tumor, mas tinha olhos de maldade – de toda a maldade que engoli e ruminei por todos estes anos; bocas com dentes da crueldade e dureza da verdade – a verdade que omiti por toda a minha vida. Indomável. A criatura pulsava a violência da vingança não só do garoto assassinado ontem, mas de tudo o que sempre esperou por vingança em toda minha vida, tudo que repousou em passiva negligência.
Infelizmente não me encontro em condições de narrar toda a fúria da criatura colérica, mas ela me pareceu soar a justiça; esta minha certeza talvez pudesse me redimir de meus erros, mas enquanto vou, sei que não mereço nada mais do que ir e, no entanto, vou com um certo orgulho de dentro de mim ter saído algo que levou tantos juntos e espero que exista um inferno para acomodá-los, porque a terra não lhes é merecida.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nada

    
     Oriundo de nenhum lugar, vindo com o vento e sem pressa de chegar. Sou eterno, sou instantâneo, sou o nada. Enquanto lá fora é dia, naqueles corredores escuros daqueles prédios cinzas eu sou a luz que sai por debaixo de cada porta e que quando você abre não há nada. Eu sou o interruptor que desliga e que no escuro não se enxerga, pois sou, afinal, o nada. Sou mais importante que quase tudo, preencho o vazio e o vazio é infinito, as coisas são exceções e eu sou a regra.

     Subestimam-me assim como eu sou subestimável, pois se vive no nada, para nada e, no entanto, só importa aquilo que é algo, o resto, o ínfimo, as coisas que acontecem quando vou cochilar. Mas não é fama que quero, sou imperador do universo e cada pó é um súdito meu, sou, por assim dizer, deus. Pouco me importa se rezam para mim, se a mim dedicam algum mísero minuto de cada um de seus desprezíveis dias – gotas d’água num oceano de vácuo e solidão.

     Mas é até engraçado como os homens ilustram seu dia de um cotidiano que lhes parece, por algum motivo que desconheço, fazer algum sentido. É impressionante como apesar de viverem em mim e para mim, como em suas vidas curtas como um espirro da galáxia, conseguem desprezar o fato de que nada são, foram ou serão. Não me irrita, mas certamente me intriga a ingenuidade que repousa no fato de ignorarem minha existência.

     Mas hoje lembrei. Lembrei porque me ignoram, porque vivem alheios ao meu domínio, lembrei de tudo. Lembrei que sou, na verdade, escravo deles, eles são meus senhores e eu vivo em função deles. Porque o nada não faz sentido se eles não existem para ser alguma coisa. Sem eles eu sou o nada e como só há nada eu sou tudo e, por conseguinte, eu não existo.

     Sim, eu nasci, não sou eterno, mas humano, frágil como sua existência. Ora, me lembro daqueles macacos andando, dando significado às coisas, fazendo símbolos do nada, lanças das pedras, fogo de pedaços de pau; lembro quando me pariram em sua criatividade humana. Mas junto com essas lembranças que me vieram como que do nada lembrei de outra coisa: não existo.

     Ao me reconhecerem, ao me escreverem, ao me desenharem, mesmo em sua arte, em seus símbolos, os humanos fazem de mim pensamento e assim não posso ser mais o que sou, não posso ser mais que uma idéia do “nada”. O nada é algo e, portanto, não existe como nada.



Lembrei de outra coisa, não me cabem memórias, não me cabe nada; ao nada, nada.







sábado, 10 de abril de 2010

Ele não é porque nunca foi



 E se eu dissesse que Deus me mandou matar? Não, eu sei o que isso parece, não sou um idiota. Mas se a partir do momento em que os homens criaram Deus ele passou a existir, me parece razoável que se eu o vejo me dando ordens ele realmente está me dando ordens. Quero dizer, por que eu sou louco e outros conseguem isenção nos impostos? Ok, enquanto o Deus que os homens acreditam prega o amor, meu desejo é assassino, mas não sejamos idiotas – me esforçarei para não sê-lo. Deus ordenou que seu único filho se deixasse ser açoitado e pregado em uma cruz e isso me parece uma maluquice semelhante a Ele aparecer para mim e dizer “mate”. Não me parece (a primeira vista) muito racional, ademais, milhões de pessoas, em diferentes épocas, travarem guerras e mais guerras em nome do amor de Deus.
Ora, não há nada de esquisito em matar em nome do amor, tampouco é paradoxo – façamos um esforço para não sermos estúpidos, para vermos a idéia de amor como uma coisa mediata; a violência é, nessa condição, razoável. Nossa cegueira diante desta verdade consiste no fato de estarmos presos a uma soma de códigos morais que nos fazem ver o amor como início, meio e fim, enquanto na verdade, salvo curtas experiências – ilusões – o amor sequer existe. E se houve um grande engano?
E se Deus nunca tivesse falado sobre amor? “Assim como vocês me inventaram, eu os inventei e vocês inventaram o amor”, a ordem me é confusa, mas o conceito faz sentido. E assim entenderam tudo errado, então Deus não me disse apenas “mate”, ordenou “mata-me”. “Como?”, indaguei em minha ingenuidade genuinamente humana. Nada. Deus não respondeu em sua genuína ausência divina, porque ele está em todos os lugares o que me parece quase o mesmo que não estar em lugar nenhum.
“Você já o matou, posto que ele nunca nasceu”, me disseram. Mas só pode morrer aquilo que vive, só diz “mata-me” os vivos. E estou certo de que as coisas só existem na medida em que damos vida a elas, o mesmo vale para nós. Só vivemos e saímos por aí postulando besteiras porque acreditamos nisso e, do mesmo modo, as pedras só não estão vivas porque assim cremos. Mas, se a partir de um dado momento começarmos a falar com as pedras e a ouvirmos responder, seria, ao que me parece, correto dizer que as pedras falam. Assim como, do mesmo modo, quando acreditamos que Deus existe, ele realmente existe, porque o que existe só existe porque assim queremos – é tudo cria nossa.
Deus criou os filósofos para que eles provassem sua existência, os filósofos criaram e provaram a existência de um Deus que criou outros filósofos que mataram a Deus. Mas ele ainda vive, porque Nietzsche só o matou enquanto morto, matou um Deus morto, é preciso matar ao Deus vivo, posto que o morto já mataram.
Mas que missão dos diabos... Deus é um cara ardiloso, você o mata hoje e ele ressuscita ainda mais glorioso três dias depois, sempre haverá um idiota para ressuscitá-lo e fazê-lo subir aos céus; então, veja bem, minha conclusão é lógica, ainda que você vá me chamar de louco apesar de tudo. A conclusão é que Deus ao pedir para matá-lo, pediu para que eu matasse a humanidade, pois assim mato Deus hoje e ninguém o ressuscita três dias depois. Por precaução mato a mim mesmo em seguida, afinal não confio em mim mesmo, não posso garantir que em um momento de medo e tristeza, em meio a solidão (em função da extinção da humanidade) eu não venha a ressuscitar a Deus – nunca esqueçamos, basta um pensamento e Ele está de volta, nunca duvidei de seu poder, recomendo que também não duvidem.
Só estou refletindo, colocando em linhas lógicas o que parece loucura. Explicando o que você, idiota, não entenderá, negará e negará porque lhe é conveniente, mas, sobretudo, porque és ridículo, covarde e idiota. Ria de mim, mas não me julgue; não enquanto o sangue não tiver sido derramado, até então sou um cara normal, pois o que diferencia um psicopata de um normal é matar. Pensar em matar não dói e não machuca, todos pensam, talvez até mesmo você, é possível e provável que em cada esquina das ruas de seu bairro, neste exato momento, alguém esteja pensando seriamente em matar e, no entanto, nenhum deles é louco, pois suas “loucuras” estão enclausuradas em suas mentes, enquanto a minha eu escrevo, pois a diferença entre eu e você, hoje, é que não sou hipócrita. Amanhã serei o assassino de Deus e aí sim, concordo, serei completamente diferente de você, idiota.

sábado, 27 de março de 2010

Um ser são, numa sociedade doente



Este texto foi escrito em abril de 2005, coloco ele aqui originalmente como foi escrito então. As únicas modificações que me senti tentado a colocar estão em negrito.

Um ser são, numa sociedade doente


“Estava escuro, passavam das onze e meia, estava sentado naquele banco da praça, os transeuntes noturnos com suas caras fechadas pareciam me encarar. Passou um gordo fedorento, na verdade nem conseguia sentir seu cheiro, mas sua aparência repugnante seria incoerente caso não fedesse. De todos que passavam por lá, aquele ser era o mais nojento – um rato gordo que parecia implorar, “mata-me”. Com seus olhar irritante, me encarou, parecia ter dado uma piscada. Acabei com seu sofrimento, me atirei em cima do ser roliço e com meu inseparável canivete laranja abri um corte em seu pescoço”. Esse é o relato escrito que fiz no primeiro dia de internação no hospício, agora dez anos depois me sinto diferente.
Convenceram-me de que era louco e que as pessoas da praça não me encaravam, era tudo fruto da minha imaginação. Os remédios me faziam bem, pelo menos era o que diziam. Meu bom comportamento e o sinal de sanidade que eu já apresentava há longos tempos seriam premiados com uma visita ao zoológico da cidade.
Partimos cedo, nós três – eu, Eusébio e Nero. Eusébio, às vezes, me irritava, no alto de seus quase dois metros de altura era o responsável por não nos permitir assistir a TV em determinados horários, proibia-nos de jogar cartas e, tudo isso, sem nos dar satisfação alguma (não se dá satisfações aos loucos, ao que parece). Eu já devia tê-lo matado antes, ele faz por merecer, sempre faz. Nero era uma estátua, nunca o ouvi dizer uma palavra, minto, certa vez quando eu descansava na cadeira assistindo a TV, disse-me que eu era uma pessoa sã, que eu não devia estar lá: “Fuja, fuja desse lugar!”, cochichou em meu ouvido. Foi a única vez que o ouvi falar, mas confesso que deve ter sido apenas uma ilusão criada pelo meu subconsciente.
Já estávamos na entrada do zoológico, Eusébio não parava de passar instruções, sua voz irritante somado ao insuportável calor fazia meu sangue ferver, se estivesse acompanhando do meu canivete laranja... Não, eu não faria nada, mudei, não sou mais louco.
Andamos pelo zoológico, primeiro vimos os pingüins, seguimos o caminho passando pela girafa, gorila, onça... As pessoas me irritavam! Elas fediam e faziam barulhos insuportáveis, uma criança com seu pirulito chorava e pedia para ver o leão, por que não punham o desgraçado dentro da jaula de uma vez? Por que nos preocupamos tanto com as pessoas? Vermes insignificantes rastejando pelo chão do zoológico, apontando a tromba do pobre elefante não percebem sua mediocridade, julgam-se mais inteligentes que os animais que sabiamente calados apenas observam o declínio da raça humana, uma raça arrogante e  hipócrita.
- Eu não sou igual a eles.
- Que? – Eusébio adorava fingir cinicamente não ouvir o que os outros diziam, com seus entoados “quês” fazia tudo o que eu falava parecer um absurdo, esse costume me irritava, sempre tinha vontade de matá-lo, Nero, calado como sempre, só observava, seu semblante revelava sabedoria, era indubitavelmente um humano diferente.
- Você disse que não é igual a eles? Eles quem?
- Você e todos os outros humanos, sou diferente, descobri que não sou louco, só não sou como vocês, uma raça decadente perto da extinção.
Naquele momento todo meu avanço em dez anos de internação se esvaeceu antes aos olhos do incrédulo Eusébio. Só restava a mim fugir, e assim o fiz.
Dez anos se passaram, sou tido como morto – é assim que classificam os fugitivos que não conseguem encontrar, conveniência, eu não dou à mínima. Foi naquele dia no zoológico que percebi que o único jeito de encontrar a felicidade, algo paradoxalmente tão humano, era fugindo dos humanos. Hoje vivo na floresta, na periferia da pequena cidade onde se encontra o hospício (me pergunto se ainda se mantém em pé aquele refúgio da realidade que repousa no fato de que a doença é a insanidade da própria existência humana, a separação física – em construções chamadas de hospício – dos anormais, mas mais uma vez, dou à mínima). Hoje sou feliz, junto dos pássaros e lobos ouvindo a encantadora melodia da água da cachoeira, o vento fazendo os galhos dos altos ipês dançarem, juntos dos animais espero o fim da raça humana, observamos espantados a podridão que se acelera nos centros urbanos, o fedor de parasitas que consomem a terra com suas vidinhas miseráveis.
Os animais me compreendem, sinto como se tivesse sido adotado quando criança por estranhos e hoje estou de volta para minha casa. Sou muito feliz aqui, os animais não fedem como os humanos, comunico com os animais através de olhares, venho gradativamente perdendo a vontade de matar, tenho complacência pelos humanos, são insignificantes, não sabem o que fazem.