quinta-feira, 13 de maio de 2010

Tumor




Gregori estava completamente desinteressado e de certa forma eu lhe dava razão. Mas por motivos diversos, eu estava com minha cabeça em outro lugar e ele com ela em lugar nenhum. Assistíamos a apresentação por mera formalidade, mas, em verdade – isso me ocorreu de repente – toda minha vida tem sido vivida por baixo das saias da falsidade. Minha vida tem se resumido a sentar em poltronas de anfiteatros, cheirar o ar gelado e mofado por horas a fio, enquanto homens, em geral pouco importantes, mas, sobretudo, pouco autênticos, falavam tudo menos qualquer coisa que poderia me interessar ou interessar a alguém. As vezes eu falava para outros “eus” sentados nas poltronas olhando os relógios como que tentando apressar o tempo, mas com o efeito contrário.
Hoje o tempo parou e o cara não parava de falar; eu chutaria que já falava por séculos não fosse tão familiarizado com tudo aquilo. A contra gosto aceitaria se tratar de não mais que uma hora, não obstante estava mais frio que o comum e, eu sentia um calor que viria da alma caso existissem coisas como almas. Mas não existem, é elegante em minha carreira ser cético e ateu, características que atestam uma certa legitimidade àqueles discursos vazios que, no entanto, são intermináveis, intermináveis! Perdão pela minha histeria, não se trata de um estado de espírito normal, mas é o caso que nesta manhã estou um pouco aflito, nervoso, desesperado. E Gregori, desgraçado, parecia meditar! Tantos anos respirando o ar podre dos – confortáveis – notáveis da mediocridade burguesa pareciam ter enfim resultado em alguma espécie de dano grave a minha saúde. Algum tipo de tumor, assim suponho, se desenvolveu parte em meus pulmões, parte em meu estômago. Hoje, nesta manhã, o tumor parecia dançar dentro de meu corpo. E só não o vomito porque tenho enorme experiência em engolir coisas indigestas; à força tudo se acomoda, em minha carreira não se pode colocar para fora o que não presta, de sorte que não me dou ao avesso por aí.
Minha peculiar interação com meu tumor, com o qual travei uma complexa negociação que consistia na busca de um bem comum para ambos, fez o tempo passar sem que eu notasse e, o palestrante estava para lá da metade de suas palavras de encerramento, de modo que o fim da apresentação coincidiria, com sorte, com um acordo entre eu e meu tumor nos seguintes termos: “tendo em vista que meu corpo é sua e minha morada, para um convívio aceitável você até me sufoca – isso é resultado de seu tamanho e nada se pode fazer em relação a isso – , mas não dance!”. E, de fato, o tumor me deu uma trégua assim que a palestra se encerrou. Saí com pressa enfrentando indesejados cumprimentos, sempre indesejados e falsos é verdade, mas se soma hoje minha necessidade de cair fora daquele anfiteatro e com urgência conversar com Gregori sobre a terrível noite anterior, a noite em que fomos monstros. Em verdade, monstros que somos.
Me dei com o exterior, o ar quente e úmido, impregnado de uma fumaça preta e pesada, mas respirar no momento é luxo. Gregori ainda não havia saído e, provocantemente, demorava. Quando saiu, visto livre de falsos cumprimentos, dirigiu-se a passos largos para seu carro tentando driblar as pessoas no seu caminho. Gregori é alto, demasiado, e andava rápido em direção ao seu carro, de modo que para alcançá-lo tive que trotar. Ele já quase entrava no carro quando, a uns cinco metros dele, tive que gritar:
- Gregori, Gregori! – ele olhou para trás, mas só porque foi impossível ignorar meus gritos; seu rosto carregava o “Oh, Deus! Foi por pouco...” num sincero e manifesto desgosto em trocar palavras comigo. Normalmente eu também faria questão de evitar uma conversa com ele, mas preciso falar sobre ontem. Oh, ontem...
- Ralmi... – é meu nome, eu o odeio até mais que odeio o cotidiano de minha vida, mas acho que, de certa forma, o mereço – Estou com um pouco de pressa...
- Precisamos falar sobre ontem – fui seco e direto, minha, nossa especialidade é a falsidade, mas a ocasião dispensava rodeios formais.
- Não há nada para se falar sobre ontem – Gregori se esquivava do assunto enquanto já projetava seu enorme corpo para dentro daquele carro ( a imagem dele dentro do carro era cômica e eu não sei se isso alivia ou intensifica a tensão da situação).
É apavorante e, de certo modo, surpreendente o modo relapso com o qual Gregori lidava com o pesadelo da noite anterior, de modo que tive que protestar:
- Matamos! Somos assassinos! E a uma criança! – minhas palavras soaram pouco mais altas do que eu queria ou do que era prudente se tratando de tão comprometedora confissão, mas mais do que isso, revelou a sinceridade de meu desespero.
- Está morto, falou bem, de sorte que não temos que enterrá-lo. Morto, não fala. Ontem morreu junto com ele todos os traços de nossa culpa. Então, Ralmi meu caro, esqueça. Esqueça assim como já esqueci; tão cedo hoje despertei, ontem não me existia mais; nada, nem culpa, nem remorso, nem ressaca. – Gregori parecia sincero em cada palavra, a noite anterior parecia não lhe tocar de modo algum e, seu cérebro em consonância com seu coração se operavam em um só mecanismo de racionalidade jurídica. Mas eu, ao contrário, estou devastado e nenhuma garantia de não implicações legais conseguia sequer me consolar:
- Como acordar e esquecer de ontem se sequer consigo dormir? Um câncer nasceu dentro de mim e ele se mexe vigorosamente! – o tumor voltava a se mexer rompendo o acordo agora pouco estabelecido, mas não só dançava: fazia um carnaval. A cólera (seu nome, como me revelou agora) indignou-se diante da passividade de Gregori (e talvez do mundo).
Gregori respirou fundo e já dentro do carro sentenciou através da meia janela aberta:
- Ralmi, sem formalidades, foda-se seu remorso. Digira-o, roa-o e remoa-o, mantenha em seu rabo, procure a bosta de um analista, entorpeça-se, que seja... mas não abra a porra dessa sua boca. Entendeu? Agora, estou com pressa, vou indo. – fechou toda a janela e ligou o motor do carro.
Atônito, nada pude fazer. A ameaça de Gregori me deixou perplexado, mas meu estômago parecia se rasgar (e na verdade se rasgava), os pulmões tornaram-se incapazes de captar oxigênio, o tumor dobrou ou triplicou de tamanho. Indigesto. Depois de engolir a merda de toda a parte durante toda minha vida, vomitei aquele tumor para fora e ele parecia carregar tudo aquilo.
Aquele tumor do tamanho de um porco médio saiu por minha boca e projetou-se direto sobre o capô do carro diante do pára-brisa dos olhos do, agora apavorado, Gregori. Não era só um tumor, tinha o formato de um tumor, mas tinha olhos de maldade – de toda a maldade que engoli e ruminei por todos estes anos; bocas com dentes da crueldade e dureza da verdade – a verdade que omiti por toda a minha vida. Indomável. A criatura pulsava a violência da vingança não só do garoto assassinado ontem, mas de tudo o que sempre esperou por vingança em toda minha vida, tudo que repousou em passiva negligência.
Infelizmente não me encontro em condições de narrar toda a fúria da criatura colérica, mas ela me pareceu soar a justiça; esta minha certeza talvez pudesse me redimir de meus erros, mas enquanto vou, sei que não mereço nada mais do que ir e, no entanto, vou com um certo orgulho de dentro de mim ter saído algo que levou tantos juntos e espero que exista um inferno para acomodá-los, porque a terra não lhes é merecida.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nada

    
     Oriundo de nenhum lugar, vindo com o vento e sem pressa de chegar. Sou eterno, sou instantâneo, sou o nada. Enquanto lá fora é dia, naqueles corredores escuros daqueles prédios cinzas eu sou a luz que sai por debaixo de cada porta e que quando você abre não há nada. Eu sou o interruptor que desliga e que no escuro não se enxerga, pois sou, afinal, o nada. Sou mais importante que quase tudo, preencho o vazio e o vazio é infinito, as coisas são exceções e eu sou a regra.

     Subestimam-me assim como eu sou subestimável, pois se vive no nada, para nada e, no entanto, só importa aquilo que é algo, o resto, o ínfimo, as coisas que acontecem quando vou cochilar. Mas não é fama que quero, sou imperador do universo e cada pó é um súdito meu, sou, por assim dizer, deus. Pouco me importa se rezam para mim, se a mim dedicam algum mísero minuto de cada um de seus desprezíveis dias – gotas d’água num oceano de vácuo e solidão.

     Mas é até engraçado como os homens ilustram seu dia de um cotidiano que lhes parece, por algum motivo que desconheço, fazer algum sentido. É impressionante como apesar de viverem em mim e para mim, como em suas vidas curtas como um espirro da galáxia, conseguem desprezar o fato de que nada são, foram ou serão. Não me irrita, mas certamente me intriga a ingenuidade que repousa no fato de ignorarem minha existência.

     Mas hoje lembrei. Lembrei porque me ignoram, porque vivem alheios ao meu domínio, lembrei de tudo. Lembrei que sou, na verdade, escravo deles, eles são meus senhores e eu vivo em função deles. Porque o nada não faz sentido se eles não existem para ser alguma coisa. Sem eles eu sou o nada e como só há nada eu sou tudo e, por conseguinte, eu não existo.

     Sim, eu nasci, não sou eterno, mas humano, frágil como sua existência. Ora, me lembro daqueles macacos andando, dando significado às coisas, fazendo símbolos do nada, lanças das pedras, fogo de pedaços de pau; lembro quando me pariram em sua criatividade humana. Mas junto com essas lembranças que me vieram como que do nada lembrei de outra coisa: não existo.

     Ao me reconhecerem, ao me escreverem, ao me desenharem, mesmo em sua arte, em seus símbolos, os humanos fazem de mim pensamento e assim não posso ser mais o que sou, não posso ser mais que uma idéia do “nada”. O nada é algo e, portanto, não existe como nada.



Lembrei de outra coisa, não me cabem memórias, não me cabe nada; ao nada, nada.







sábado, 10 de abril de 2010

Ele não é porque nunca foi



 E se eu dissesse que Deus me mandou matar? Não, eu sei o que isso parece, não sou um idiota. Mas se a partir do momento em que os homens criaram Deus ele passou a existir, me parece razoável que se eu o vejo me dando ordens ele realmente está me dando ordens. Quero dizer, por que eu sou louco e outros conseguem isenção nos impostos? Ok, enquanto o Deus que os homens acreditam prega o amor, meu desejo é assassino, mas não sejamos idiotas – me esforçarei para não sê-lo. Deus ordenou que seu único filho se deixasse ser açoitado e pregado em uma cruz e isso me parece uma maluquice semelhante a Ele aparecer para mim e dizer “mate”. Não me parece (a primeira vista) muito racional, ademais, milhões de pessoas, em diferentes épocas, travarem guerras e mais guerras em nome do amor de Deus.
Ora, não há nada de esquisito em matar em nome do amor, tampouco é paradoxo – façamos um esforço para não sermos estúpidos, para vermos a idéia de amor como uma coisa mediata; a violência é, nessa condição, razoável. Nossa cegueira diante desta verdade consiste no fato de estarmos presos a uma soma de códigos morais que nos fazem ver o amor como início, meio e fim, enquanto na verdade, salvo curtas experiências – ilusões – o amor sequer existe. E se houve um grande engano?
E se Deus nunca tivesse falado sobre amor? “Assim como vocês me inventaram, eu os inventei e vocês inventaram o amor”, a ordem me é confusa, mas o conceito faz sentido. E assim entenderam tudo errado, então Deus não me disse apenas “mate”, ordenou “mata-me”. “Como?”, indaguei em minha ingenuidade genuinamente humana. Nada. Deus não respondeu em sua genuína ausência divina, porque ele está em todos os lugares o que me parece quase o mesmo que não estar em lugar nenhum.
“Você já o matou, posto que ele nunca nasceu”, me disseram. Mas só pode morrer aquilo que vive, só diz “mata-me” os vivos. E estou certo de que as coisas só existem na medida em que damos vida a elas, o mesmo vale para nós. Só vivemos e saímos por aí postulando besteiras porque acreditamos nisso e, do mesmo modo, as pedras só não estão vivas porque assim cremos. Mas, se a partir de um dado momento começarmos a falar com as pedras e a ouvirmos responder, seria, ao que me parece, correto dizer que as pedras falam. Assim como, do mesmo modo, quando acreditamos que Deus existe, ele realmente existe, porque o que existe só existe porque assim queremos – é tudo cria nossa.
Deus criou os filósofos para que eles provassem sua existência, os filósofos criaram e provaram a existência de um Deus que criou outros filósofos que mataram a Deus. Mas ele ainda vive, porque Nietzsche só o matou enquanto morto, matou um Deus morto, é preciso matar ao Deus vivo, posto que o morto já mataram.
Mas que missão dos diabos... Deus é um cara ardiloso, você o mata hoje e ele ressuscita ainda mais glorioso três dias depois, sempre haverá um idiota para ressuscitá-lo e fazê-lo subir aos céus; então, veja bem, minha conclusão é lógica, ainda que você vá me chamar de louco apesar de tudo. A conclusão é que Deus ao pedir para matá-lo, pediu para que eu matasse a humanidade, pois assim mato Deus hoje e ninguém o ressuscita três dias depois. Por precaução mato a mim mesmo em seguida, afinal não confio em mim mesmo, não posso garantir que em um momento de medo e tristeza, em meio a solidão (em função da extinção da humanidade) eu não venha a ressuscitar a Deus – nunca esqueçamos, basta um pensamento e Ele está de volta, nunca duvidei de seu poder, recomendo que também não duvidem.
Só estou refletindo, colocando em linhas lógicas o que parece loucura. Explicando o que você, idiota, não entenderá, negará e negará porque lhe é conveniente, mas, sobretudo, porque és ridículo, covarde e idiota. Ria de mim, mas não me julgue; não enquanto o sangue não tiver sido derramado, até então sou um cara normal, pois o que diferencia um psicopata de um normal é matar. Pensar em matar não dói e não machuca, todos pensam, talvez até mesmo você, é possível e provável que em cada esquina das ruas de seu bairro, neste exato momento, alguém esteja pensando seriamente em matar e, no entanto, nenhum deles é louco, pois suas “loucuras” estão enclausuradas em suas mentes, enquanto a minha eu escrevo, pois a diferença entre eu e você, hoje, é que não sou hipócrita. Amanhã serei o assassino de Deus e aí sim, concordo, serei completamente diferente de você, idiota.

sábado, 27 de março de 2010

Um ser são, numa sociedade doente



Este texto foi escrito em abril de 2005, coloco ele aqui originalmente como foi escrito então. As únicas modificações que me senti tentado a colocar estão em negrito.

Um ser são, numa sociedade doente


“Estava escuro, passavam das onze e meia, estava sentado naquele banco da praça, os transeuntes noturnos com suas caras fechadas pareciam me encarar. Passou um gordo fedorento, na verdade nem conseguia sentir seu cheiro, mas sua aparência repugnante seria incoerente caso não fedesse. De todos que passavam por lá, aquele ser era o mais nojento – um rato gordo que parecia implorar, “mata-me”. Com seus olhar irritante, me encarou, parecia ter dado uma piscada. Acabei com seu sofrimento, me atirei em cima do ser roliço e com meu inseparável canivete laranja abri um corte em seu pescoço”. Esse é o relato escrito que fiz no primeiro dia de internação no hospício, agora dez anos depois me sinto diferente.
Convenceram-me de que era louco e que as pessoas da praça não me encaravam, era tudo fruto da minha imaginação. Os remédios me faziam bem, pelo menos era o que diziam. Meu bom comportamento e o sinal de sanidade que eu já apresentava há longos tempos seriam premiados com uma visita ao zoológico da cidade.
Partimos cedo, nós três – eu, Eusébio e Nero. Eusébio, às vezes, me irritava, no alto de seus quase dois metros de altura era o responsável por não nos permitir assistir a TV em determinados horários, proibia-nos de jogar cartas e, tudo isso, sem nos dar satisfação alguma (não se dá satisfações aos loucos, ao que parece). Eu já devia tê-lo matado antes, ele faz por merecer, sempre faz. Nero era uma estátua, nunca o ouvi dizer uma palavra, minto, certa vez quando eu descansava na cadeira assistindo a TV, disse-me que eu era uma pessoa sã, que eu não devia estar lá: “Fuja, fuja desse lugar!”, cochichou em meu ouvido. Foi a única vez que o ouvi falar, mas confesso que deve ter sido apenas uma ilusão criada pelo meu subconsciente.
Já estávamos na entrada do zoológico, Eusébio não parava de passar instruções, sua voz irritante somado ao insuportável calor fazia meu sangue ferver, se estivesse acompanhando do meu canivete laranja... Não, eu não faria nada, mudei, não sou mais louco.
Andamos pelo zoológico, primeiro vimos os pingüins, seguimos o caminho passando pela girafa, gorila, onça... As pessoas me irritavam! Elas fediam e faziam barulhos insuportáveis, uma criança com seu pirulito chorava e pedia para ver o leão, por que não punham o desgraçado dentro da jaula de uma vez? Por que nos preocupamos tanto com as pessoas? Vermes insignificantes rastejando pelo chão do zoológico, apontando a tromba do pobre elefante não percebem sua mediocridade, julgam-se mais inteligentes que os animais que sabiamente calados apenas observam o declínio da raça humana, uma raça arrogante e  hipócrita.
- Eu não sou igual a eles.
- Que? – Eusébio adorava fingir cinicamente não ouvir o que os outros diziam, com seus entoados “quês” fazia tudo o que eu falava parecer um absurdo, esse costume me irritava, sempre tinha vontade de matá-lo, Nero, calado como sempre, só observava, seu semblante revelava sabedoria, era indubitavelmente um humano diferente.
- Você disse que não é igual a eles? Eles quem?
- Você e todos os outros humanos, sou diferente, descobri que não sou louco, só não sou como vocês, uma raça decadente perto da extinção.
Naquele momento todo meu avanço em dez anos de internação se esvaeceu antes aos olhos do incrédulo Eusébio. Só restava a mim fugir, e assim o fiz.
Dez anos se passaram, sou tido como morto – é assim que classificam os fugitivos que não conseguem encontrar, conveniência, eu não dou à mínima. Foi naquele dia no zoológico que percebi que o único jeito de encontrar a felicidade, algo paradoxalmente tão humano, era fugindo dos humanos. Hoje vivo na floresta, na periferia da pequena cidade onde se encontra o hospício (me pergunto se ainda se mantém em pé aquele refúgio da realidade que repousa no fato de que a doença é a insanidade da própria existência humana, a separação física – em construções chamadas de hospício – dos anormais, mas mais uma vez, dou à mínima). Hoje sou feliz, junto dos pássaros e lobos ouvindo a encantadora melodia da água da cachoeira, o vento fazendo os galhos dos altos ipês dançarem, juntos dos animais espero o fim da raça humana, observamos espantados a podridão que se acelera nos centros urbanos, o fedor de parasitas que consomem a terra com suas vidinhas miseráveis.
Os animais me compreendem, sinto como se tivesse sido adotado quando criança por estranhos e hoje estou de volta para minha casa. Sou muito feliz aqui, os animais não fedem como os humanos, comunico com os animais através de olhares, venho gradativamente perdendo a vontade de matar, tenho complacência pelos humanos, são insignificantes, não sabem o que fazem.
 



sexta-feira, 26 de março de 2010

O Direito de Escrever Errado


Não que importe, mas gosto de descrever (quando acho que possa ter algum valor) o contexto sobre o qual o texto foi escrito (se não quiser ler pode ir direto ao texto). Este texto que apresento é fruto de um concurso de crônicas que participei em 2004 ou 2005. Nunca fui de participar de concuros, ainda mais concuros de crônica, no entanto fui pego de surpresa com o pedido da minha então professora de redação do Colégio Objetivo para que participasse desse concurso.
Ela pediu para que eu escrevesse uma crônica sobre o tema "língua portuguesa" (ou algo do tipo): "Lucas, estou avisando meio de última hora, mas gostaria que você participasse de um concurso de crônicas com o tema 'língua portuguesa'". Foi mesmo de última hora, devia ser entregue no dia seguinte e eu, na época, mal sabia o que era uma crônica. Você lê crônicas nos jornais todos os dias, mas nem se dá conta de que se trata de uma crônica, e além disso, uma coisa é ler crônicas, outra é escrever, eu nunca havia escrito uma.
Mas resolvi aceitar o desafio, talvez por causa da falta de experiência no tema e por ter recebido a proposta tão de última hora e com um prazo tão curto, eu simplesmente resolvi escrever o que queria, sem quaisquer amarras, o resultado foi isso que vocês lêem agora, eu não tinha a menor previsão de que uma crônica assim escrita poderia ter qualquer sucesso num concurso.
Eu não ganhei o concurso, mas me surpreendi com o fato de primeiro minha crônica ter sido escolhida como representante de minha cidade (o concurso era federal ou estadual, não me lembro e realmente não importa) e depois ter ganho na "fase regional", isto é, ter sido escolhida como a representante da região de Campinas. Não foi mais longe e acho que nem poderia ir, não é uma crônica que se espera ler de uma vencedora de um concurso nacional ou estadual sobre a "língua portuguesa", é mais uma bobeira minha que, no entanto, me diverti muito escrevendo.




O Direito de Escrever Errado

Ora, eu falo português, mas quem não fala? Um francês, é bem verdade, não fala, mas fala francês. Eu escrevo, escrevo em português, o que é escrever se não, bom... Escrever? È possível escrever coisas e não dizer nada, a língua me permite isso. Por exemplo, como faço agora, não foi dito completamente nada, apenas algo sobre a língua, algo que caso não fosse dito, não faria diferença nenhuma, quem se importa? Eu me importo, escrevo uma crônica e preciso falar alguma coisa sobre a língua portuguesa, usá-la indiscriminadamente apenas como efeito simbólico pode até ser legal, agrada inclusive a muitos que pouco se importam com o conteúdo, mas não descartam a estrutura, bonitinha como tem que ser. No entanto acho injusto fazer meus leitores perderem seu tempo (precioso ou não, ninguém quer ficar lendo porcaria) com uma crônica feita num momento de nenhuma inspiração de seu autor, então nos próximos parágrafos, mediante o possível, escreverei algumas coisas, (que torço) façam valer seu tempo perdido.

O que faço, ou melhor, vou fazer se não discutir acerca da língua? O que é a língua? Já parou para pensar? Espero que não, não tem nada a se pensar sobre isso, mas algumas coisas interessantes até podem ser ditas, por exemplo, quem não gosta da língua como efeito de diversão? –ler livros?- Não! Ninguém mais lê livros hoje em dia, lêem piadas, no máximo. A língua complexa como é, só é usada hoje, no geral, de uma forma pobre, só como efeito de comunicação, uma comunicação cibernética, divertida e descomprometida, escrever bem ficou limitado ao nível acadêmico. Aprendemos na escola milhares de maneiras de escrever “por que”, em cada caso um uso especifico, mas o que estão usando por ai? Pq. “Também” tem acento? Mas só se escreve “tb”, dessa maneira não é preciso ficar decorando coisas como proparoxítonas terminadas em sabe-se lá o que para se por o acento de forma correta. Não, não estou defendendo que a língua portuguesa deve sofrer uma radical mudança, que sejam aceitos os “tbs”, pqs”, “ehs” (és), “naums” (nãos) da vida. Só estou relatando o que ocorre por ai...

Mas o que realmente me irrita sobre a língua, é sua intelectualização, ou talvez melhor ainda, elitização. Reprimem-se aqueles que tentam escrever, que têm idéias, mas não se adequam a “estrutura” criada e legislada pelos corretores de provas de vestibular, sim são esses os que educam nossa juventude a escrever, aprendemos hoje a escrever apenas porque no final do terceiro ano do ensino médio faremos um vestibular e nele haverá uma redação ou se mais, isso nem é tão importante, para responder questões que serão também encontradas nesse vestibular. O que ocorre no caso é uma clara confusão entre o conceito de objetividade e estrutura conservadora que se é imposto para as dissertações. Existe algo mais chato do que dissertar sobre um assunto pré-determinado e de uma maneira comum e a medida do possível pouco inovadora? Esqueçam a criatividade, “respeitem a norma culta”, “seria mais adequado dizer barbárie”, mas o que é mesmo barbárie? “Não sei, mas isso irá aumentar alguns pontos de sua redação” O pior, no entanto são as coletâneas, não já fosse o bastante o aluno estar encarcerado ao tema proposto, ainda vêm com essa coisa de coletânea. Funciona assim: O texto deve conter elementos plagiados ( dizem que apenas deve ser feita uma análise critica dos trechos retirados, é o significado no meio literário/acadêmico para “plagio permitido”) e alguns (vai com calma ein!), poucos, originais. Mas que visão pessimista do futuro literário de nosso país é esse? Você que está lendo agora deve estar pensando “o que esse idiota está falando? Não sabe de nada”, talvez não, mas digo o que acredito que sei.

Hmmm... Li o parágrafo anterior novamente e notei algumas idéias umas tanto precipitadas, poderia ter apertado backspace e arrumado, mas achei que discuti-las aqui seria mais interessante, além do mais não é nada tão grave. A visão critica sobre a educação e o incentivo à leitura do último parágrafo é injusta a medida que foi feita uma generalização, no geral aquele quadro é perfeito, mas sempre existem as exceções, e uma vez que existam devem ser devidamente lembradas em minha crônica ( sem citar nomes, o verdadeiro reconhecimento é o que você mesmo tem de si).

Proponho aqui, apesar da preguiça que tenho de fazê-lo, uma revolução. Uma revolução companheiros! (Desta vez ficou bem mais convincente), talvez seja melhor terceriza-la, da muito trabalho uma revolução. “Mas que revolução?”.
- La Revolucion companheiro!
-Não entendo...
-Uma revolução da língua, ora pois!
-Sei... E no que consiste?
-Vamos mudar radicalmente nossa língua, não podemos mais tolerar escrever dessa maneira!
-Que maneira? Pra mim está bom desse jeito...
-Você é ignorante, não percebe que está sendo manipulado?
-Estou?
-É, estão usando a língua para dominá-lo, criam barreiras para dificultar seu direito de expressão, estão criando aos poucos seres permeáveis a um golpe, uma ditadura! Tirarão seu direito de expressão, e você nem perceberá, pois, já estão aos poucos, lhe condicionando a isso!
-Se não vou nem perceber, qual é o problema?
-Como assim? Você não se sente mal oprimido dessa maneira?
-Não sei. Deveria?
-Sim! Deveria aderir à revolução!
-Legal, o que devo fazer primeiro?
-Nunca mais aceite escrever alguma coisa de forma correta, vamos marginalizar a língua, vamos levá-la ao alcance de todos!
-Esse papo me parece um tanto quanto comunista...
-Não trata-se de nada disso, falo de justiça! Falo do direito de expressar o que pensamos o que sentimos da maneira que quisermos.
-Ainda me parece um papo comunista, eu não sou comunista, não vou aderir a revolução, pois revoluções são comunistas.

É verdade, revoluções são comunistas, quem gosta do comunismo? O que eu disse tem algum sentido? Estou sendo contraditório? È verdade, estou, é que mudei de idéia. Mudei de novo, sou contra uma revolução, não por revoluções serem comunistas, mas é que escrever errado é feio, não gosto do que é feio.
Ações como essas... “Revoluções”, ora REVOLUÇÕES! Mas que droga! Estou cansado dessa idéia de revolução, tudo deveria continuar como está eternamente. A língua portuguesa não tem pobrema como está, escrevo da maneira que quero, e quero escrever errado, anssim, viu? Estou escrevinhando errado! Lá, lá, lá! Não gostou? Sabe de uma coisa não fiz para que gostasse. Fiz por que fiz, e por que quis assim fazer, e fasso de novo. Viu? Faço quantas vezes achar pertinente. Não, não devo desculpas a língua portuguesa, nem ela me deve. Do que estou falando? A língua portuguesa nem existe, é uma invenção do homem não é? Quem a inventou? Quem se importa? Eu me importo, escrevi uma crônica inteirinha sobre alguma coisa que nem poderá lê-la. Pobre língua portuguesa, já que não pode ler, espero que permita que alguém a leia por você, alguém que se simpatize com você. Bom, que seja, se alguém ler essa crônica já feliz me fez.
FIM. Quero dizer, até mais, bom, “ponto final” então, acho que dessa maneira adequo-me melhor as normas cultas, e se não também, peço perdões à língua portuguesa, que como já disse não existe, mas se existisse acho que mereceria que eu o fizesse.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Still the Same Old Story

-->

Mais uma vez, a mesma velha história, que só renasce porque se conta de novo e de novo, então, assim, lhes conto:
A mesma história, uma luta por amor e glória. Uma detalhada, escancarada e, a despeito disso tudo, bela e poética descrição da desgraça, da ruína, do desastre. Faz-se arte do sangue derramado, as linhas da história incessantemente transformam em heróis e vilões os assassinos do passado.
Isso, nada disso interessava a ela. A mesma história, uma luta por amor e glória; e ela escrevia sobre o azul do oceano, o verde das árvores – não o conheço com seus olhos (sou daltônico), mas como é belo em suas palavras! Como é bela cada insignificância, cada ínfima descrição da vida em sua mais ingênua manifestação. Como, de repente, da boca dela a descrição daquele cachorro sujo, vira-lata, faminto, quase morto, supera meu deus e é meu deus.
Ela constrói um deus a cada dia e oro a cada um deles com a mais dedicada devoção, porque cada momento ao lado dela é um milagre que se realiza em minha alma e andar sobre a água, multiplicar os pães e o vinho, nada me surpreende, nada importa, nada além dela.
Ah, o azul do oceano... às vezes ele é verde e até vermelho, mas quem se importa? Nas palavras dela é azul e não importa mais sua cor, ele é mais bonito quando azul.
Os homenzinhos uniformizados morrem e matam, e a cada movimento dos peões “a história do mundo se projeta para um ou outro futuro” dizem. Ele não renuncia, uma multidão protesta, uns outros homenzinhos (também uniformizados) os contêm, alguns morrem, os que vivem têm medo e se calam. O mundo ferve, o céu é escuro e a atmosfera cheira a pavor, mas ela não tem medo; ela não escreve sobre mortos; ela não canta hinos que fabricam uma falsa coragem nos corações deslocados; ela não é um dos elos de uma corrente fraca que enforca a história e sufoca a humanidade. Ela é diferente, enquanto o pôr-do-sol é cinza e o horizonte é uma fera raivosa que aperta o peito, o seu oceano é azul e seu sorriso guarda a esperança, suas lágrimas lavam o sangue que repousa sobre o chão porque são a paz.
Consagram os homens que fazem odes aos maestros do progresso, daquele prédio que é construído com uma mão enquanto a outra incendeia dez mil cidades. Um projeto de humanidade desumana; leio os livros, assimilo a lógica dos vencedores, mas aí então... a mesma história... mas lá está, iluminada por raios de um sol que insiste em acordar a cada dia, acho que posso dizer: por ela. Então a conheci, então aprendi a vencer na derrota, aprendi que há beleza e que há felicidade que supera o horror de cada esquina e que faz o terror se encolher só de ouvir seu nome.

Aprendi que o azul do oceano é a epopéia da vida,

As time goes by...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Amanhã


Amanhã não acordarei com um beijo quente na fria manhã; não despertarei minha cabeça ainda sonolenta com a água quente caindo sobre mim num reconfortante banho; não serei surpreendido no chuveiro pela pele macia da mulher que não tenho; não vestirei a camisa favorita que não ganhei no último aniversário que não celebrei; não tomarei o doce café que não foi preparado pela mulher que não estará na cozinha tostando os pães na torradeira que não tenho; não beijarei a testa do meu bebê deitado no berço, que não é mais bebê e não me ama; não passarei alguns minutos esquentando o motor do carro que não tenho enquanto minha mulher não fica na porta me observando com um olhar apaixonado que não encontrará meus olhos.
Não dirigirei até o trabalho que não tenho pensando numa promoção que não acontecerá; não chegando lá, não irei escrever os artigos que não são elogiados por toda a equipe do jornal do qual não estarei fazendo parte; no tempo que sobrar do horário do almoço, não olharei na internet a vitória do meu time que perdeu; não navegarei em vários sites de pacotes de viagens planejando a viagem à praia que não acontecerá nas férias de fim do ano com a família que não tenho; as férias que não terei no final do ano não darão ânimo para eu continuar, a tarde, a inspirada reportagem que não escreverei; no final da tarde, antes de voltar para casa, não serei chamado à sala do presidente do jornal e não serei promovido editor-chefe.
Saindo do trabalho, não passarei no mercadinho e não comprarei a cerveja que virou vinho; não chegarei em casa e não serei recebido por beijos apaixonados de minha mulher que não estará mais linda do que nunca; não darei a boa notícia que não terei e não teremos um excelente jantar de comemoração; não levarei meu filho que não me ama para sua cama e não lerei a história que ele não adora até ele dormir como um anjo; depois não irei até o quarto e minha mulher não estará me esperando com a camisola branca que não teremos comprado para celebrar o amor que só existe com nós dois; não nos amaremos a noite inteira; não conversaremos sobre a viagem para a praia que virou Paris; não planejaremos a área de churrasco que virou piscina; não dormirei na tranqüilidade do sono mais sereno que um homem pode ter.

Amanhã acordarei com o som dos meus músculos tremendo na desesperada tentativa de trazer calor à vida que congela na mais fria manhã. Meus braços, vacilantes, protegerão como a tudo o que têm e, na verdade, de fato tudo o que têm: um resto de garrafa de cachaça. Tomarei dois longos goles que ressuscitarão o cadáver que ainda teimava em viver. Ficarei jogado sobre o chão, sob a ponte, até que meu estômago raciocinará o que minha cabeça não consegue mais fazer, me fará levantar e procurar por restos de comida nos lixos. O poeta, naquela manhã, me observará e transformará minha miséria em arte, meu lixo em música. Durante a tarde as pessoas passarão de carro na avenida ouvindo a música sobre mim, cantarão a minha perda e rimarão minha covardia. Quando o dia tiver cansado e o sol tiver ido sem promessas de voltar, a noite trará o frio que voltará a matar o que ainda sobrou vivo de mim. Em um último suspiro inspirador o poeta encerrará a música narrando meu suicídio como um vôo à imensidão lírica das águas verdes do mar.
No dia seguinte as pessoas cantarão a nova música da estação e esquecerão da música de minha desgraça, mas minha desgraça será para sempre.

A desgraça é eterna.

 Lucas Nascimento Ferraz Costa    9/02/2010