sexta-feira, 26 de março de 2010

O Direito de Escrever Errado


Não que importe, mas gosto de descrever (quando acho que possa ter algum valor) o contexto sobre o qual o texto foi escrito (se não quiser ler pode ir direto ao texto). Este texto que apresento é fruto de um concurso de crônicas que participei em 2004 ou 2005. Nunca fui de participar de concuros, ainda mais concuros de crônica, no entanto fui pego de surpresa com o pedido da minha então professora de redação do Colégio Objetivo para que participasse desse concurso.
Ela pediu para que eu escrevesse uma crônica sobre o tema "língua portuguesa" (ou algo do tipo): "Lucas, estou avisando meio de última hora, mas gostaria que você participasse de um concurso de crônicas com o tema 'língua portuguesa'". Foi mesmo de última hora, devia ser entregue no dia seguinte e eu, na época, mal sabia o que era uma crônica. Você lê crônicas nos jornais todos os dias, mas nem se dá conta de que se trata de uma crônica, e além disso, uma coisa é ler crônicas, outra é escrever, eu nunca havia escrito uma.
Mas resolvi aceitar o desafio, talvez por causa da falta de experiência no tema e por ter recebido a proposta tão de última hora e com um prazo tão curto, eu simplesmente resolvi escrever o que queria, sem quaisquer amarras, o resultado foi isso que vocês lêem agora, eu não tinha a menor previsão de que uma crônica assim escrita poderia ter qualquer sucesso num concurso.
Eu não ganhei o concurso, mas me surpreendi com o fato de primeiro minha crônica ter sido escolhida como representante de minha cidade (o concurso era federal ou estadual, não me lembro e realmente não importa) e depois ter ganho na "fase regional", isto é, ter sido escolhida como a representante da região de Campinas. Não foi mais longe e acho que nem poderia ir, não é uma crônica que se espera ler de uma vencedora de um concurso nacional ou estadual sobre a "língua portuguesa", é mais uma bobeira minha que, no entanto, me diverti muito escrevendo.




O Direito de Escrever Errado

Ora, eu falo português, mas quem não fala? Um francês, é bem verdade, não fala, mas fala francês. Eu escrevo, escrevo em português, o que é escrever se não, bom... Escrever? È possível escrever coisas e não dizer nada, a língua me permite isso. Por exemplo, como faço agora, não foi dito completamente nada, apenas algo sobre a língua, algo que caso não fosse dito, não faria diferença nenhuma, quem se importa? Eu me importo, escrevo uma crônica e preciso falar alguma coisa sobre a língua portuguesa, usá-la indiscriminadamente apenas como efeito simbólico pode até ser legal, agrada inclusive a muitos que pouco se importam com o conteúdo, mas não descartam a estrutura, bonitinha como tem que ser. No entanto acho injusto fazer meus leitores perderem seu tempo (precioso ou não, ninguém quer ficar lendo porcaria) com uma crônica feita num momento de nenhuma inspiração de seu autor, então nos próximos parágrafos, mediante o possível, escreverei algumas coisas, (que torço) façam valer seu tempo perdido.

O que faço, ou melhor, vou fazer se não discutir acerca da língua? O que é a língua? Já parou para pensar? Espero que não, não tem nada a se pensar sobre isso, mas algumas coisas interessantes até podem ser ditas, por exemplo, quem não gosta da língua como efeito de diversão? –ler livros?- Não! Ninguém mais lê livros hoje em dia, lêem piadas, no máximo. A língua complexa como é, só é usada hoje, no geral, de uma forma pobre, só como efeito de comunicação, uma comunicação cibernética, divertida e descomprometida, escrever bem ficou limitado ao nível acadêmico. Aprendemos na escola milhares de maneiras de escrever “por que”, em cada caso um uso especifico, mas o que estão usando por ai? Pq. “Também” tem acento? Mas só se escreve “tb”, dessa maneira não é preciso ficar decorando coisas como proparoxítonas terminadas em sabe-se lá o que para se por o acento de forma correta. Não, não estou defendendo que a língua portuguesa deve sofrer uma radical mudança, que sejam aceitos os “tbs”, pqs”, “ehs” (és), “naums” (nãos) da vida. Só estou relatando o que ocorre por ai...

Mas o que realmente me irrita sobre a língua, é sua intelectualização, ou talvez melhor ainda, elitização. Reprimem-se aqueles que tentam escrever, que têm idéias, mas não se adequam a “estrutura” criada e legislada pelos corretores de provas de vestibular, sim são esses os que educam nossa juventude a escrever, aprendemos hoje a escrever apenas porque no final do terceiro ano do ensino médio faremos um vestibular e nele haverá uma redação ou se mais, isso nem é tão importante, para responder questões que serão também encontradas nesse vestibular. O que ocorre no caso é uma clara confusão entre o conceito de objetividade e estrutura conservadora que se é imposto para as dissertações. Existe algo mais chato do que dissertar sobre um assunto pré-determinado e de uma maneira comum e a medida do possível pouco inovadora? Esqueçam a criatividade, “respeitem a norma culta”, “seria mais adequado dizer barbárie”, mas o que é mesmo barbárie? “Não sei, mas isso irá aumentar alguns pontos de sua redação” O pior, no entanto são as coletâneas, não já fosse o bastante o aluno estar encarcerado ao tema proposto, ainda vêm com essa coisa de coletânea. Funciona assim: O texto deve conter elementos plagiados ( dizem que apenas deve ser feita uma análise critica dos trechos retirados, é o significado no meio literário/acadêmico para “plagio permitido”) e alguns (vai com calma ein!), poucos, originais. Mas que visão pessimista do futuro literário de nosso país é esse? Você que está lendo agora deve estar pensando “o que esse idiota está falando? Não sabe de nada”, talvez não, mas digo o que acredito que sei.

Hmmm... Li o parágrafo anterior novamente e notei algumas idéias umas tanto precipitadas, poderia ter apertado backspace e arrumado, mas achei que discuti-las aqui seria mais interessante, além do mais não é nada tão grave. A visão critica sobre a educação e o incentivo à leitura do último parágrafo é injusta a medida que foi feita uma generalização, no geral aquele quadro é perfeito, mas sempre existem as exceções, e uma vez que existam devem ser devidamente lembradas em minha crônica ( sem citar nomes, o verdadeiro reconhecimento é o que você mesmo tem de si).

Proponho aqui, apesar da preguiça que tenho de fazê-lo, uma revolução. Uma revolução companheiros! (Desta vez ficou bem mais convincente), talvez seja melhor terceriza-la, da muito trabalho uma revolução. “Mas que revolução?”.
- La Revolucion companheiro!
-Não entendo...
-Uma revolução da língua, ora pois!
-Sei... E no que consiste?
-Vamos mudar radicalmente nossa língua, não podemos mais tolerar escrever dessa maneira!
-Que maneira? Pra mim está bom desse jeito...
-Você é ignorante, não percebe que está sendo manipulado?
-Estou?
-É, estão usando a língua para dominá-lo, criam barreiras para dificultar seu direito de expressão, estão criando aos poucos seres permeáveis a um golpe, uma ditadura! Tirarão seu direito de expressão, e você nem perceberá, pois, já estão aos poucos, lhe condicionando a isso!
-Se não vou nem perceber, qual é o problema?
-Como assim? Você não se sente mal oprimido dessa maneira?
-Não sei. Deveria?
-Sim! Deveria aderir à revolução!
-Legal, o que devo fazer primeiro?
-Nunca mais aceite escrever alguma coisa de forma correta, vamos marginalizar a língua, vamos levá-la ao alcance de todos!
-Esse papo me parece um tanto quanto comunista...
-Não trata-se de nada disso, falo de justiça! Falo do direito de expressar o que pensamos o que sentimos da maneira que quisermos.
-Ainda me parece um papo comunista, eu não sou comunista, não vou aderir a revolução, pois revoluções são comunistas.

É verdade, revoluções são comunistas, quem gosta do comunismo? O que eu disse tem algum sentido? Estou sendo contraditório? È verdade, estou, é que mudei de idéia. Mudei de novo, sou contra uma revolução, não por revoluções serem comunistas, mas é que escrever errado é feio, não gosto do que é feio.
Ações como essas... “Revoluções”, ora REVOLUÇÕES! Mas que droga! Estou cansado dessa idéia de revolução, tudo deveria continuar como está eternamente. A língua portuguesa não tem pobrema como está, escrevo da maneira que quero, e quero escrever errado, anssim, viu? Estou escrevinhando errado! Lá, lá, lá! Não gostou? Sabe de uma coisa não fiz para que gostasse. Fiz por que fiz, e por que quis assim fazer, e fasso de novo. Viu? Faço quantas vezes achar pertinente. Não, não devo desculpas a língua portuguesa, nem ela me deve. Do que estou falando? A língua portuguesa nem existe, é uma invenção do homem não é? Quem a inventou? Quem se importa? Eu me importo, escrevi uma crônica inteirinha sobre alguma coisa que nem poderá lê-la. Pobre língua portuguesa, já que não pode ler, espero que permita que alguém a leia por você, alguém que se simpatize com você. Bom, que seja, se alguém ler essa crônica já feliz me fez.
FIM. Quero dizer, até mais, bom, “ponto final” então, acho que dessa maneira adequo-me melhor as normas cultas, e se não também, peço perdões à língua portuguesa, que como já disse não existe, mas se existisse acho que mereceria que eu o fizesse.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Still the Same Old Story

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Mais uma vez, a mesma velha história, que só renasce porque se conta de novo e de novo, então, assim, lhes conto:
A mesma história, uma luta por amor e glória. Uma detalhada, escancarada e, a despeito disso tudo, bela e poética descrição da desgraça, da ruína, do desastre. Faz-se arte do sangue derramado, as linhas da história incessantemente transformam em heróis e vilões os assassinos do passado.
Isso, nada disso interessava a ela. A mesma história, uma luta por amor e glória; e ela escrevia sobre o azul do oceano, o verde das árvores – não o conheço com seus olhos (sou daltônico), mas como é belo em suas palavras! Como é bela cada insignificância, cada ínfima descrição da vida em sua mais ingênua manifestação. Como, de repente, da boca dela a descrição daquele cachorro sujo, vira-lata, faminto, quase morto, supera meu deus e é meu deus.
Ela constrói um deus a cada dia e oro a cada um deles com a mais dedicada devoção, porque cada momento ao lado dela é um milagre que se realiza em minha alma e andar sobre a água, multiplicar os pães e o vinho, nada me surpreende, nada importa, nada além dela.
Ah, o azul do oceano... às vezes ele é verde e até vermelho, mas quem se importa? Nas palavras dela é azul e não importa mais sua cor, ele é mais bonito quando azul.
Os homenzinhos uniformizados morrem e matam, e a cada movimento dos peões “a história do mundo se projeta para um ou outro futuro” dizem. Ele não renuncia, uma multidão protesta, uns outros homenzinhos (também uniformizados) os contêm, alguns morrem, os que vivem têm medo e se calam. O mundo ferve, o céu é escuro e a atmosfera cheira a pavor, mas ela não tem medo; ela não escreve sobre mortos; ela não canta hinos que fabricam uma falsa coragem nos corações deslocados; ela não é um dos elos de uma corrente fraca que enforca a história e sufoca a humanidade. Ela é diferente, enquanto o pôr-do-sol é cinza e o horizonte é uma fera raivosa que aperta o peito, o seu oceano é azul e seu sorriso guarda a esperança, suas lágrimas lavam o sangue que repousa sobre o chão porque são a paz.
Consagram os homens que fazem odes aos maestros do progresso, daquele prédio que é construído com uma mão enquanto a outra incendeia dez mil cidades. Um projeto de humanidade desumana; leio os livros, assimilo a lógica dos vencedores, mas aí então... a mesma história... mas lá está, iluminada por raios de um sol que insiste em acordar a cada dia, acho que posso dizer: por ela. Então a conheci, então aprendi a vencer na derrota, aprendi que há beleza e que há felicidade que supera o horror de cada esquina e que faz o terror se encolher só de ouvir seu nome.

Aprendi que o azul do oceano é a epopéia da vida,

As time goes by...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Amanhã


Amanhã não acordarei com um beijo quente na fria manhã; não despertarei minha cabeça ainda sonolenta com a água quente caindo sobre mim num reconfortante banho; não serei surpreendido no chuveiro pela pele macia da mulher que não tenho; não vestirei a camisa favorita que não ganhei no último aniversário que não celebrei; não tomarei o doce café que não foi preparado pela mulher que não estará na cozinha tostando os pães na torradeira que não tenho; não beijarei a testa do meu bebê deitado no berço, que não é mais bebê e não me ama; não passarei alguns minutos esquentando o motor do carro que não tenho enquanto minha mulher não fica na porta me observando com um olhar apaixonado que não encontrará meus olhos.
Não dirigirei até o trabalho que não tenho pensando numa promoção que não acontecerá; não chegando lá, não irei escrever os artigos que não são elogiados por toda a equipe do jornal do qual não estarei fazendo parte; no tempo que sobrar do horário do almoço, não olharei na internet a vitória do meu time que perdeu; não navegarei em vários sites de pacotes de viagens planejando a viagem à praia que não acontecerá nas férias de fim do ano com a família que não tenho; as férias que não terei no final do ano não darão ânimo para eu continuar, a tarde, a inspirada reportagem que não escreverei; no final da tarde, antes de voltar para casa, não serei chamado à sala do presidente do jornal e não serei promovido editor-chefe.
Saindo do trabalho, não passarei no mercadinho e não comprarei a cerveja que virou vinho; não chegarei em casa e não serei recebido por beijos apaixonados de minha mulher que não estará mais linda do que nunca; não darei a boa notícia que não terei e não teremos um excelente jantar de comemoração; não levarei meu filho que não me ama para sua cama e não lerei a história que ele não adora até ele dormir como um anjo; depois não irei até o quarto e minha mulher não estará me esperando com a camisola branca que não teremos comprado para celebrar o amor que só existe com nós dois; não nos amaremos a noite inteira; não conversaremos sobre a viagem para a praia que virou Paris; não planejaremos a área de churrasco que virou piscina; não dormirei na tranqüilidade do sono mais sereno que um homem pode ter.

Amanhã acordarei com o som dos meus músculos tremendo na desesperada tentativa de trazer calor à vida que congela na mais fria manhã. Meus braços, vacilantes, protegerão como a tudo o que têm e, na verdade, de fato tudo o que têm: um resto de garrafa de cachaça. Tomarei dois longos goles que ressuscitarão o cadáver que ainda teimava em viver. Ficarei jogado sobre o chão, sob a ponte, até que meu estômago raciocinará o que minha cabeça não consegue mais fazer, me fará levantar e procurar por restos de comida nos lixos. O poeta, naquela manhã, me observará e transformará minha miséria em arte, meu lixo em música. Durante a tarde as pessoas passarão de carro na avenida ouvindo a música sobre mim, cantarão a minha perda e rimarão minha covardia. Quando o dia tiver cansado e o sol tiver ido sem promessas de voltar, a noite trará o frio que voltará a matar o que ainda sobrou vivo de mim. Em um último suspiro inspirador o poeta encerrará a música narrando meu suicídio como um vôo à imensidão lírica das águas verdes do mar.
No dia seguinte as pessoas cantarão a nova música da estação e esquecerão da música de minha desgraça, mas minha desgraça será para sempre.

A desgraça é eterna.

 Lucas Nascimento Ferraz Costa    9/02/2010

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Menino Sem Alma


Madalena sempre dizia para Guilherme, seu filho, “você não dará certo na vida”; “pare de tentar, não conseguirá” e, pra falar a verdade, ela provavelmente estava certa no que dizia, mas é o tipo de coisa que não se fala, não para seu filho. Mas ela não fazia por maldade, era ignorância, aquela que não permite perceber que estamos sendo – vou usar uma palavra que, para alguns, parecerá ingênua, mas que aqui cabe perfeitamente – maldosos. Isso porque uma maldade, mesmo quando praticada sem querer, continua sendo uma maldade e fere a alma de alguém do mesmo modo. A de Guilherme, particularmente, dir-se-ia, salvo por algum mistério que apenas Deus pode explicar, já estava morta.
Guilherme era um humano sem alma. Sim, agora posso dizer; Deus, Ele mesmo, me contou. Estou morto e converso com Deus, nem todos conversam, apesar de onipresente, onipotente e, ainda por cima, mesmo considerando o fato de que o tempo para Ele é simplesmente desprezível, pois o tempo é coisa da Terra, do universo, e não divino (mas este é um segredo sobre o qual não estou autorizado a contar), mesmo assim, ele não atende a todos, e tão somente àqueles que são dignos de sua atenção, como eu. Antes de continuar a história, que não é a minha, destaco aqui o fato de que, apesar de eu falar com Deus, o caso de Guilherme me é um mistério, porque nem Ele mesmo fala sobre o assunto.
É que, e isso, ao que parece mexe até com a cabeça de Deus (Ele não tem cabeça, mas só digo isso para me poupar de em outras vezes ter que ficar explicando os usos metafóricos; assim, por conveniência e ignorando a realidade – que é chata na maioria das vezes – consideremos que Deus é um grande homem barbudo vestido de uma bela manta branca, o que não é verdade, mas é legal e cabe mais ao uso de metáforas). Isso, o que eu estou tentando dizer, é o fato de que Guilherme não tem alma. E ao que parece, em todos os tempos, desde o principio até agora (e sempre?), este caso é inédito. É consenso aqui no céu – na Terra toda a unanimidade é burra, no céu toda unanimidade é fato, verdade – que há uma relação intrínseca e indissociável entre o começo e o fim da existência de um ser, isto é, sua vida, e a alma. Em outras palavras, enquanto, e somente enquanto, um ser tem vida, ele tem alma. E, do mesmo modo que uma alma não pode vagar na terra sem vida, uma vida não pode existir sem uma alma (desculpem-me espíritas. Sim, vocês estão errados).
O fato é, e na verdade somente isso importa, que Guilherme não tem alma. Não sei se nunca teve, mas se sim, em algum momento ele a perdeu. Comecei a história culpando sua mãe, Madalena, por ter destruído sua alma, não sei se é o caso. Nem o demônio pode arrancar a alma de alguém vivo, pode comprar, isto é verdade, mas só será entregue em seu domicilio após a morte.
Guilherme é um garoto aparentemente normal; quero dizer, ele não tem alma, mas mesmo assim parece ser normal. Ele é um idiota e, portanto, pois estamos falando de casos gerais, normal. Ele, antes de dormir, reza todas as noites para Deus agradecendo por tudo e, o que é mais engraçado, por misericórdia por sua alma que, nós sabemos, ele não tem. É claro que rezar para Deus agradecendo pelas coisas é uma coisa inteligente a se fazer, inflar o ego Dele e se humilhar perante Ele é, certamente, algo que todos deveriam fazer (já que nossa eternidade está em suas mãos), todos que tem alma. Guilherme não tem alma. Mas reza. Todos os dias, sua mãe o obriga, mas cá entre nós, a alma dela deve ir pro inferno.
O que você faria se soubesse que não tem alma? Ora, você não vai para o inferno e, tão pouco, para o céu – vai, isso sim (e somente isso), para baixo da terra (com sorte, a qual Guilherme certamente não teria, em um belo caixão de mogno). Não tem porque rezar, não tem porque nutrir um amor pela humanidade, nem um falsificado como esses, quase todos, que vemos por aí. Não há motivo para não ser perfeitamente egoísta, para amar, a não ser que se ame para si próprio. Ora, Guilherme não é um santo, mas não sai por aí matando nem roubando e, às vezes, até sente pena de sua mãe, aquela sua monstruosa genitora que merece qualquer coisa menos piedade; ainda mais dele que, em suas mãos, teve a oportunidade de desfrutar da maldade humana em seu exemplar mais puro que se pode encontrar na terra. Alguém tem que avisá-lo que não tem alma! Para que possa viver a vida como ela o confronta: sem amanhã.
E, engraçado, a mentira é engraçada. É um pecado, dizem. Mas ela serve à alguma coisa, nem que seja à minha diversão e se for só isso, já basta. Mas, às vezes, nem a isso. Seria reconfortante se houvesse alguém lá em cima rindo de mim, rindo de todos, mas ora, não há. A verdade é que não falo com Deus, ou porque não sou digno ou porque Ele simplesmente não existe. Ah, não por coincidência meu nome é Guilherme, estou enterrado há uns tantos anos, a espera de Deus, que não vem e não virá. E, nossa... Pergunto-me, porque não me avisaram que não tinha alma? Por que não avisam? Bom, eu aviso; mas pensando bem, por favor, não ouça, ou finja que não ouviu.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Guarda-chuva


Chovia, e mesmo assim não era de um guarda-chuva que eu precisava. Era de algo que eu não sabia o que. Não me culpem, não sei, realmente não sei. Não sei o que, mas sei que preciso. Cheguei à conclusão, e ela é momentânea, – como todas minhas conclusões – que isso é a vida, a busca por algo o qual você não sabe e nunca saberá o que é. Você, eventualmente, acha os caminhos e a eles damos o nome de felicidade, mas o caminho não nos leva à destino algum, são apenas trechos, a felicidade não dura para sempre.
De certo, nesse exato momento, eu deveria estar procurando o caminho; algo me desviou, e, como tudo e só o que, na verdade, essa vida pede, eu precisava retomar o rumo, precisava encontrar a felicidade, mas não é o que estou fazendo. Não quero o caminho, quero chegar. E é por isso mesmo que não estou no bar, não estou me embriagando no mais fácil e rápido caminho; também, e pelo mesmo motivo, não estou a cativar as amizades o amor e os sentimentos relacionados a isso sejam eles quais forem; essas coisas, que, em longo prazo, são o caminho mais certeiro, mas que a maior longo prazo – já cheguei num momento da vida no qual posso dizer isso –, digo ao longo de uma vida, ou de quase toda ela, não te leva ao tão aspirado destino, isso eu posso garantir.
Alguns diriam que sou velho e infeliz, eu digo que sou apenas velho. Sou vítima, possuído pela maldição dos anos, a morte espreita a minha sombra e como que brinca comigo me deixando viver mais alguns aninhos. A um velho só resta refletir, depois dos 80 todos são filósofos – a não ser aqueles que já morreram, ainda que estejam vivos –, e não se pensa mais na vida, no que se pode fazer dela, mas o que foi feito, uma vez que não há tempo para fazer mais nada. Você é o juiz do seu passado e, ao menos que seja muito falso consigo mesmo, a sentença é que você é culpado. Ora, todos os outros a sua volta, aqueles que supostamente te amavam e que você amava (aos outros, aos que odiei ou simplesmente com quem fui indiferente eu não julgo, porque é pretensão descabida), também são culpados, até mais que você mesmo, mas estão num estágio da vida que ainda não perceberam e não podem ter percebido seus próprios pecados. A uma coisa a velhice certamente serve, ela embranquece seus cabelos, apodrece sua carne, mas também lhe da a culpa, não a culpa pelos erros, mas a culpa de toda sua vida, de todos seus dias, a culpa que é intrínseca à vida.
As gotas frias da chuva fina molham aquele rosto enrugado, feio, que sempre fora feio, mas que agora é, além do mais, velho. Eu gosto da chuva, ela molha, esfria, mas não engana, ela está lá, tem seu propósito definido, é imprevisível como a esperança, é o presente que esfria o futuro, o deixa distante, mas com a certeza de que chegará; já o futuro, este molha o passado, e o torna inalcançável. Este destrói e deixa a certeza de que não se reconstruirá. Assim eu pensava, “filosofava”, por assim dizer, se isso pode acrescer algo a inutilidade daquele momento de um velho reflexivo.
“Saia da chuva, quer ficar doente?”, eu queria, mas não podia, ninguém é dono do seu corpo, nunca, nem na sua juventude mais plena, no entanto, depois de certa altura seu corpo deixa de ser um estranho a si mesmo e a todos e se torna escravo de outros, não é mais nada seu e quase todo, do pior modo possível, de pessoas as quais você não confiaria nem sua urina diária. Isso é terrível, mas como se podia prever eu deveria obedecer, sair da chuva e voltar para dentro, insistir é inútil, e a resignação é a maior virtude que um velho pode carregar. Aceitar e esperar, é isso. Contestar você contesta quando ainda faz alguma diferença, mas quando não só você, mas todos esperam ansiosos por sua morte o melhor a se fazer é esperar e esperar quieto.
Mas, e esse conto só pode fazer sentido por causa deste “mas” que é, na verdade, vamos ser sinceros, uma ilustração metafórica e literária que dá à vida atributos os quais dela não fazem parte, isto é, um exagero, uma mentira, uma esperança que só tem espaço na ficção, eis o “mas”: Mas eu não saí da chuva:
- Não quero voltar e não vou. – a mulher, funcionária antiga, uma mulher competente e – e não “mas” – fria e cruel, daquela casa de descanso de velhinhos (as pessoas adoram eufemismos), não ficou surpreendida com minha resposta a qual considero, sinceramente, corajosa e desafiadora. Isso é natural, velhos falam muito para pouco serem escutados, talvez exatamente por isso mesmo falem muito, na esperança de que algo seja escutado.
- Senhor, será que você me escutou? Pode sair da chuva? Vai ficar doente. – Ela repetiu com um tom de indiferença como o qual ignora completamente meus argumentos, inválidos pelo fato de terem saído de minha boca, pois é, velha. Doente eu já estava, só faltava morrer.
Foi quando percebi, encontrei o que precisava. Quero dizer, o que precisava em toda minha vida, não o caminho, mas, e digo isso para manter a metáfora do velho reflexivo, o destino. Ia dizer, preparei em minha garganta (é dela que saem as palavras?) a resposta triunfante, enfim, pois, triunfara, mas a resposta não saiu, não poderia sair. Mortos não falam, e eu posso dizer-lhes isso agora que sei. Eu estava caído no chão e sim, morto. Não, não estava morto o tempo todo, morri naquela hora, naquele instante, pouco antes de poder dizer a frase que entalou em minha alma durante todos estes oitenta e dois anos. Morri de velho oras, a chuva terminou por congelar meu coração que já batia vacilante há anos, mas foi por muito pouco, uma meia fração de segundo, quase pude dizer. Agora morro com a resposta, e, nossa! quem diria, o que me faltou, na verdade, foi um guarda-chuva.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Falando de Amor


Hoje recebi um poema que me deixou sem jeito, pela sua excelência - inegável - , beleza e por ser dedicado a mim e por quem amo. Me desculpo por não poder - nem me atrever - retribuir. Juro que tentarei, mas na falta de palavras minhas deixo as dela:

Porque amor já não é o bastante para dizer. Porque vai muito além da música. Porque é música, e de música foi feito.
Porque o amor é como se fosse um lugar estranho de onde não quero voltar. E não vou voltar.
Gosto quando seus olhos param em mim, exagerando qualquer ínfimo traço de uma beleza inventada.
Porque qualquer riso é motivo de gargalhada, de uma alegria insana e infantil de uma alma minha que é só tua.
Porque a sua ausência se faz tão presente que é prazeroso sentí-la.
Porque a razão não cabe, e as respostas fogem aflitas.
Porque é você, e nada além de você se faz compreensível no mundo.



E só me resta a inocência tão verdadeira de uma verdade tão inocente: Eu te amo.

E quantos sóis pousarem, tantas vezes mais eu vou te amar.


Giovanna Ortolani, 19/10/2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O Botão Vermelho


    
Estava diante de situação tal, invejável, inesperada – era claro o que tinha que fazer e, no entanto, apesar de real queria que fosse um sonho. Não há conseqüências para o que se faz nos limites de sua cabeça, quando se liberta da prisão interior as ações tornam-se reais assim como as reações, as conseqüências, mas que conseqüências?
Não havia conseqüências, era apertar o botão vermelho, voltar para casa e... dormir? A que decisão minha consciência me absolveria? Porque no final, ainda que pensemos no coletivo, estamos pensando em nós mesmos. Como seres complicados, medimos certo e errado, criamos problemas morais que nos tornam mais humanos, porque egoisticamente gostamos de nos diferenciar dos animais.
Certamente não sou um assassino, mas até que ponto matar é errado, quando passa a ser perdoável ou até correto matar? Até Deus matou, dizimou, afogou e sufocou sua amada criação. Pois hoje sou Deus, está em minhas mãos a vida de algumas dezenas de pessoas que merecem a morte. Merecem a morte? Não sei. Na verdade não sou Deus, estou temporariamente divino, mais ainda fadado a carregar as incertezas e fraquezas humanas, um deus humano com poder, mas sem saber usá-lo.
O que você faria? Você, Deus, qualquer um, alguém... só não suporto a responsabilidade de decidir sozinho. Pouco mais de três dezenas dos mais desprezíveis seres a rastejar sua existência em solo terrestre, um botão vermelho e eu – matar ou deixar viver. Mais uma vez eu, o deus em cólera, estimulado pelo ódio, acovardado pelo medo – tudo se resume a mim e ao botão vermelho que espera impacientemente por minha decisão, não interfere, não pensa, a escolhe é minha e eu não posso recorrer a ninguém além de mim.
Certamente devia apertar, fazer o dilúvio selecionado. Repito, ninguém a quem tenho a vida em mãos merecia viver e, além disso, eu os odiava. Mas apertar significava tornar-me, no mesmo instante, um genocida e assim, um deles. Não. Um deles não, impossível. Mas ainda assim um genocida.
O humano, na verdade o animal humano, é naturalmente sádico, socialmente cristão, bondoso e altruísta, mas biologicamente cruel e sanguinário. Os olhos assustados me observavam com terror e vergonhoso rogo, isso me deliciava, me dava vida e, me sentindo vivo, vontade de matar.
Teria sido ridículo não apertar, quem não apertaria? Os mortos não me seguem, talvez por ao morrerem terem percebido que não mereciam a vida, ou talvez porque mortos simplesmente ficam para trás enquanto sigo em frente. O botão foi apertado por mim e as mortes foram e continuam sendo só minhas. Foi, é e será uma decisão solitária. Morrerei com isso e não escreverão nada a respeito no epitáfio. Estará sempre comigo e, no entanto, não sei o que fazer com isso.

I Wish it was just a dream